As pesquisas mais recentes mostram dois movimentos simultâneos na corrida presidencial: a redução consistente do percentual de indecisos e o crescimento de Flávio Bolsonaro. À primeira vista, a associação parece intuitiva: à medida que o eleitor decide, alguém precisa absorver esses votos.
Mas a pergunta central não é se isso acontece. É como acontece.
Os dados permitem ir além da fotografia das pesquisas e entrar na mecânica da dinâmica eleitoral. Ao aplicar modelos vetoriais autorregressivos (VAR), que capturam a interação temporal entre as séries, é possível observar não apenas correlação, mas precedência dinâmica: se mudanças nos indecisos ajudam a prever movimentos futuros dos candidatos.
E os resultados revelam algo mais sofisticado do que uma simples redistribuição.
O método: por que usar VAR?
Modelos tradicionais de regressão mostram relações contemporâneas — isto é, como variáveis se movem juntas no mesmo momento. Foi o que indicou, inicialmente, que tanto Lula quanto Flávio tendem a crescer quando os indecisos diminuem.
Mas eleições não se movem instantaneamente. Eleitores não decidem todos no mesmo dia. Parte do movimento é gradual.
O modelo VAR permite capturar exatamente isso: como variações passadas em uma variável influenciam as demais ao longo dos períodos seguintes. Em termos práticos, ele responde à pergunta:
Quando os indecisos caem hoje, quem tende a crescer amanhã?
A seleção automática de defasagens — via critérios AIC, BIC, HQIC e FPE — apontou como especificação ótima um VAR com quatro defasagens (VAR(4)). Para fins de robustez, também foi estimado um VAR(2), modelo mais parcimonioso.
Teste de Granger: quem antecipa quem?
O teste de causalidade de Granger não estabelece causalidade estrutural, mas identifica precedência temporal estatisticamente significativa.
No modelo VAR(2):
A queda dos indecisos antecede crescimento de Flávio (p = 0,0016).
A queda dos indecisos também antecede crescimento de Lula (p = 0,0052).
Ou seja, ambos absorvem indecisos quando o movimento é analisado com duas defasagens.
Mas no modelo com defasagem ótima, VAR(4), o padrão se torna mais assimétrico:
Indecisos → Flávio: altamente significativo (p = 0,0011).
Indecisos → Lula: perde significância estatística (p = 0,0877).
O efeito dinâmico permanece robusto para Flávio, mas se torna menos consistente para Lula quando a dinâmica de médio prazo é incorporada.
Isso sugere que parte da redistribuição pró-Lula ocorre de forma mais imediata, enquanto o avanço de Flávio apresenta maior persistência ao longo dos períodos.
Função Impulso–Resposta: o que acontece após um choque?
Para tornar a dinâmica mais concreta, foi estimada a função impulso–resposta (IRF), simulando o efeito de um choque de 1 ponto percentual nos indecisos.
Como o interesse real é na queda dos indecisos, basta inverter o sinal dos resultados.
No VAR(2), um choque equivalente a -1 p.p. em indecisos implica:
Flávio
Aproximadamente +0,44 p.p. no período seguinte.
Cerca de +1,14 p.p. acumulados nos três primeiros períodos.
Lula
Cerca de +0,34 p.p. no primeiro período.
Efeito acumulado pequeno e menos persistente ao longo dos períodos seguintes.
A diferença crucial não está apenas na magnitude inicial, mas na persistência. O avanço de Flávio tende a se sustentar ao longo dos períodos seguintes. Em Lula, parte do efeito se dissipa.
Crescimento estrutural versus redistribuição
Outro elemento central é que Flávio apresenta componente autônomo de crescimento ao longo do tempo — identificado nas regressões múltiplas com controle temporal.
Isso significa que:
Parte do crescimento de Flávio decorre da absorção de indecisos.
Parte decorre de tendência própria independente.
Lula, por sua vez, apresenta crescimento mais associado à redistribuição, com menor evidência de impulso autônomo recente.
Em termos simplificados:
Flávio cresce por dois canais.
Lula cresce principalmente por um.
O cenário com indecisos em 5%
Se o percentual atual de indecisos (em torno de 10%) cair para 5%, a dinâmica estimada sugere:
Ambos os polos crescerão.
A magnitude dependerá do ritmo da queda.
O efeito acumulado tende a favorecer Flávio em termos de persistência.
Isso não implica automaticamente mudança de liderança. Mas implica compressão de margem.
Conclusão: polarização em consolidação
Os dados indicam que a redução dos indecisos não é neutra. Ela alimenta os polos competitivos.
A diferença está na dinâmica.
Flávio apresenta:
Crescimento estrutural próprio.
Absorção dinâmica persistente de indecisos.
Lula apresenta:
Forte elasticidade contemporânea.
Menor persistência dinâmica no modelo ampliado.
O que isso sugere é menos uma virada e mais um processo de consolidação. À medida que a incerteza diminui, o sistema tende a se organizar em torno das candidaturas percebidas como competitivas. A eleição ainda está aberta. Mas a dinâmica recente indica que a queda dos indecisos pode não apenas reduzir a margem — pode também alterar a velocidade da disputa. E em campanhas eleitorais, velocidade importa tanto quanto posição.