terça-feira, 3 de março de 2026

A dinâmica invisível: como a queda dos indecisos ajuda a explicar o avanço de Flávio

 As pesquisas mais recentes mostram dois movimentos simultâneos na corrida presidencial: a redução consistente do percentual de indecisos e o crescimento de Flávio Bolsonaro. À primeira vista, a associação parece intuitiva: à medida que o eleitor decide, alguém precisa absorver esses votos.




Mas a pergunta central não é se isso acontece. É como acontece.

Os dados permitem ir além da fotografia das pesquisas e entrar na mecânica da dinâmica eleitoral. Ao aplicar modelos vetoriais autorregressivos (VAR), que capturam a interação temporal entre as séries, é possível observar não apenas correlação, mas precedência dinâmica: se mudanças nos indecisos ajudam a prever movimentos futuros dos candidatos.

E os resultados revelam algo mais sofisticado do que uma simples redistribuição.

O método: por que usar VAR?

Modelos tradicionais de regressão mostram relações contemporâneas — isto é, como variáveis se movem juntas no mesmo momento. Foi o que indicou, inicialmente, que tanto Lula quanto Flávio tendem a crescer quando os indecisos diminuem.

Mas eleições não se movem instantaneamente. Eleitores não decidem todos no mesmo dia. Parte do movimento é gradual.

O modelo VAR permite capturar exatamente isso: como variações passadas em uma variável influenciam as demais ao longo dos períodos seguintes. Em termos práticos, ele responde à pergunta:

Quando os indecisos caem hoje, quem tende a crescer amanhã?

A seleção automática de defasagens — via critérios AIC, BIC, HQIC e FPE — apontou como especificação ótima um VAR com quatro defasagens (VAR(4)). Para fins de robustez, também foi estimado um VAR(2), modelo mais parcimonioso.

Teste de Granger: quem antecipa quem?

O teste de causalidade de Granger não estabelece causalidade estrutural, mas identifica precedência temporal estatisticamente significativa.

No modelo VAR(2):

  • A queda dos indecisos antecede crescimento de Flávio (p = 0,0016).

  • A queda dos indecisos também antecede crescimento de Lula (p = 0,0052).

Ou seja, ambos absorvem indecisos quando o movimento é analisado com duas defasagens.

Mas no modelo com defasagem ótima, VAR(4), o padrão se torna mais assimétrico:

  • Indecisos → Flávio: altamente significativo (p = 0,0011).

  • Indecisos → Lula: perde significância estatística (p = 0,0877).

O efeito dinâmico permanece robusto para Flávio, mas se torna menos consistente para Lula quando a dinâmica de médio prazo é incorporada.

Isso sugere que parte da redistribuição pró-Lula ocorre de forma mais imediata, enquanto o avanço de Flávio apresenta maior persistência ao longo dos períodos.

Função Impulso–Resposta: o que acontece após um choque?

Para tornar a dinâmica mais concreta, foi estimada a função impulso–resposta (IRF), simulando o efeito de um choque de 1 ponto percentual nos indecisos.

Como o interesse real é na queda dos indecisos, basta inverter o sinal dos resultados.

No VAR(2), um choque equivalente a -1 p.p. em indecisos implica:

Flávio

  • Aproximadamente +0,44 p.p. no período seguinte.

  • Cerca de +1,14 p.p. acumulados nos três primeiros períodos.

Lula

  • Cerca de +0,34 p.p. no primeiro período.

  • Efeito acumulado pequeno e menos persistente ao longo dos períodos seguintes.

A diferença crucial não está apenas na magnitude inicial, mas na persistência. O avanço de Flávio tende a se sustentar ao longo dos períodos seguintes. Em Lula, parte do efeito se dissipa.

Crescimento estrutural versus redistribuição

Outro elemento central é que Flávio apresenta componente autônomo de crescimento ao longo do tempo — identificado nas regressões múltiplas com controle temporal.

Isso significa que:

  • Parte do crescimento de Flávio decorre da absorção de indecisos.

  • Parte decorre de tendência própria independente.

Lula, por sua vez, apresenta crescimento mais associado à redistribuição, com menor evidência de impulso autônomo recente.

Em termos simplificados:

Flávio cresce por dois canais.
Lula cresce principalmente por um.

O cenário com indecisos em 5%

Se o percentual atual de indecisos (em torno de 10%) cair para 5%, a dinâmica estimada sugere:

  • Ambos os polos crescerão.

  • A magnitude dependerá do ritmo da queda.

  • O efeito acumulado tende a favorecer Flávio em termos de persistência.

Isso não implica automaticamente mudança de liderança. Mas implica compressão de margem.

Conclusão: polarização em consolidação

Os dados indicam que a redução dos indecisos não é neutra. Ela alimenta os polos competitivos.

A diferença está na dinâmica.

Flávio apresenta:

  • Crescimento estrutural próprio.

  • Absorção dinâmica persistente de indecisos.

Lula apresenta:

  • Forte elasticidade contemporânea.

  • Menor persistência dinâmica no modelo ampliado.

O que isso sugere é menos uma virada e mais um processo de consolidação. À medida que a incerteza diminui, o sistema tende a se organizar em torno das candidaturas percebidas como competitivas. A eleição ainda está aberta. Mas a dinâmica recente indica que a queda dos indecisos pode não apenas reduzir a margem — pode também alterar a velocidade da disputa. E em campanhas eleitorais, velocidade importa tanto quanto posição.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Existe Espaço para o PSD? Uma Simulação Estratégica do Cenário

 A eleição presidencial de 2026 começa a revelar uma estrutura mais rígida do que aparenta à primeira vista. Embora o cenário estimulado apresente múltiplos nomes, os dados combinados de intenção de voto e avaliação estrutural dos candidatos indicam que o sistema já opera sob um padrão de duopólio competitivo. A análise a seguir aplica um modelo estrutural informacional com extensão estratégica baseado em Equilíbrio Quantal de Resposta (QRE), técnica consagrada na literatura de escolha probabilística desenvolvida por Richard McKelvey e Thomas Palfrey. O objetivo é avaliar, com base empírica, as reais condições de competitividade do governador Ratinho Júnior dentro do cenário considerado mais provável da pesquisa Genial/Quaest de fevereiro de 2026.




O ponto de partida do modelo é a estrutura informacional dos candidatos. Diferentemente de análises que utilizam apenas intenção de voto, a metodologia empregada considera três dimensões observáveis nas pesquisas: (1) aprovação líquida entre os eleitores que conhecem o candidato, medida pela diferença entre “conhece e votaria” e “conhece e não votaria”; (2) índice de confiança, definido como a proporção de eleitores favoráveis dentro do universo que conhece o nome; e (3) saliência informacional, que combina grau de conhecimento com qualidade da imagem. Essas variáveis permitem estimar uma utilidade estrutural de cada candidatura antes mesmo da incorporação do componente estratégico.

Matematicamente, a utilidade informacional de cada candidato é construída a partir da ponderação da saliência ajustada por um parâmetro θ₃ calibrado empiricamente em 0,595, valor que reproduz padrões observados nas pesquisas nacionais de 2024–2025. O modelo elimina o termo de desconhecimento puro, pois evidências empíricas indicam que alto percentual de “não conhece” não se converte automaticamente em potencial de crescimento no curto prazo. A racionalidade limitada do eleitor é modelada por meio do operador logit, com parâmetro τ igual a 8, valor que representa ambiente de polarização média-alta — típico do sistema brasileiro recente.

No entanto, apenas a dimensão informacional não é suficiente para capturar o comportamento estratégico do eleitor no primeiro turno. Por isso, introduz-se um termo adicional de viabilidade estratégica (W), que mede a distância relativa de cada candidato em relação ao líder nos votos válidos. A lógica é simples: quanto menor a distância para o líder, maior a percepção de viabilidade e maior a probabilidade de coordenação estratégica do eleitorado. Esse componente transforma o modelo puramente informacional em um modelo informacional-estratégico.

No Cenário 1 — considerado o mais provável — os votos válidos estão distribuídos da seguinte forma: Lula 44,9%, Flávio Bolsonaro 37,2%, Ratinho Júnior 10,3%, Romeu Zema 5,1%, Aldo Rebelo 1,3% e Renan Santos 1,3%. A exclusão de Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, que apoiariam Ratinho Júnior neste cenário, elimina dispersão intrapartidária, mas não altera substancialmente a estrutura sistêmica. A distância estratégica entre Ratinho e o líder ultrapassa 34 pontos percentuais nos votos válidos, enquanto a distância de Flávio Bolsonaro é inferior a 8 pontos. Esse diferencial é central para entender a dinâmica do equilíbrio.

Aplicando o operador QRE com τ = 8, θ₃ = 0,595 e θ₄ = 0,35 (peso atribuído à viabilidade estratégica), obtém-se uma distribuição probabilística que consolida Lula acima de 50%, mantém Flávio entre 31% e 33%, e posiciona Ratinho em uma faixa entre 7% e 9% de probabilidade estrutural. (isso não é previsão de votação mas probabilidade QRE, um conceito diferente!!) O modelo revela, portanto, um sistema já operando sob lógica de coordenação antecipada. O eleitor médio, ao perceber grande distância entre o terceiro colocado e os dois líderes, tende a concentrar sua escolha nos polos mais viáveis.

A sensibilidade ao parâmetro τ confirma o diagnóstico. Em ambiente menos polarizado (τ próximo de 5), há maior dispersão e Ratinho se aproxima de 13%. Contudo, à medida que τ se eleva — refletindo aumento da polarização ou intensificação da campanha — a probabilidade converge progressivamente para Lula e Flávio. Em τ ≥ 10, o equilíbrio torna-se tipicamente polarizado, comprimindo o espaço do terceiro colocado para níveis inferiores a 7%.

A análise estrutural das variáveis informacionais reforça o desafio. Ratinho apresenta saliência intermediária (23% de “conhece e votaria”), muito inferior à de Lula (42%) e Flávio (36%). Seu índice de confiança é competitivo dentro do universo que o conhece, mas o problema central não é qualitativo — é dimensional. O estoque informacional disponível é insuficiente para alterar rapidamente o equilíbrio sistêmico. Em termos estratégicos, ele enfrenta um duplo obstáculo: baixa densidade informacional e grande distância de viabilidade.

Isso não significa inviabilidade absoluta, mas define condições claras para competitividade. Para que sua candidatura altere a estrutura do equilíbrio, três movimentos seriam necessários simultaneamente: elevação da intenção de voto para patamar próximo a 20% dos válidos; redução da distância para o líder para menos de 15 pontos; e aumento substancial de saliência, elevando o percentual de “conhece e votaria” para algo acima de 30%. Sem esses deslocamentos, o modelo indica manutenção do padrão de duopólio.

Outro ponto relevante é a rigidez estrutural dos polos. Tanto Lula quanto Flávio apresentam rejeição elevada, mas compensada por alta saliência e forte coordenação estratégica. Isso cria um “equilíbrio travado”: embora exista espaço potencial no centro do espectro ideológico, a percepção de viabilidade bloqueia a migração de votos. O eleitor que prefere uma alternativa intermediária tende a antecipar a competição real e votar estrategicamente.

Do ponto de vista sistêmico, o Brasil permanece em uma configuração de polarização moderada-alta. O valor de τ = 8 sugere equilíbrio tipo duopólio, não disperso. A ausência de um choque exógeno — crise econômica abrupta, ruptura partidária ou escândalo de grande magnitude — dificulta a emergência de uma terceira via competitiva. A própria estrutura informacional reforça essa estabilidade.

Em síntese, as chances de Ratinho Júnior no Cenário 1 dependem menos da consolidação partidária e mais da transformação da percepção estratégica do eleitorado. O apoio de Caiado e Leite elimina fragmentação interna, mas não resolve o problema central: a coordenação antecipada entre os dois polos dominantes. O modelo QRE aplicado indica que, nas condições atuais, a probabilidade estrutural de avanço do terceiro colocado é limitada e sensível à intensidade da polarização.

A eleição ainda está distante, e modelos capturam estruturas, não destinos. Contudo, sob as premissas empíricas observadas, o sistema já apresenta sinais de consolidação bipolar. Para romper essa configuração, Ratinho precisaria provocar uma alteração significativa na hierarquia de viabilidade percebida — condição que, até o momento, não aparece nos dados.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Se não passar, centro vai ser importante no 2º turno

 A discussão sobre o papel do PSD no segundo turno presidencial parte de uma intuição política simples: se o partido tem algo entre 8% e 10% do eleitorado no primeiro turno, e a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro é apertada, então o apoio formal do PSD pode decidir a eleição. Essa narrativa é sedutora, mas a análise dos números mostra que a realidade é um pouco mais complexa.

O ponto de partida é o cenário atual do segundo turno. O agregado das pesquisas indica uma disputa muito equilibrada, com Lula ligeiramente à frente, algo em torno de 51% dos votos válidos contra 49% de Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma vantagem pequena, dentro da margem de incerteza. Em um ambiente assim, qualquer movimento organizado de eleitores pode ter impacto relevante.

Mas é fundamental entender um ponto metodológico: os eleitores do PSD já estão incluídos nas pesquisas de segundo turno. Eles não estão fora do modelo, esperando para serem “adicionados”. Parte deles já declara voto em Lula, parte em Flávio, e parte aparece como indecisa ou inclinada a branco e nulo. Portanto, quando o PSD decide apoiar formalmente um candidato, o que está em jogo não é deslocar 10% do eleitorado do zero, mas alterar o comportamento de um grupo que já está distribuído entre as opções.

No primeiro turno simulado, Lula aparece com cerca de 39%, Flávio com 35% e Ratinho com 8%. Admitimos que o eleitorado de Ratinho seja majoritariamente de centro-direita e que, no segundo turno, 55% desses votos tenderiam naturalmente a Flávio, 10% a Lula e o restante poderia se dividir entre abstenção, branco ou indecisão. Essa hipótese é coerente com as lâminas que mostram o comportamento do eleitorado de centro-direita. Ela sugere que o PSD já nasce, no segundo turno, com um alinhamento mais favorável a Flávio do que a Lula.

Esse detalhe é decisivo. Se o eleitorado do PSD já é majoritariamente pró-Flávio, o apoio formal do partido não cria uma nova maioria dentro desse grupo; ele apenas pode ampliar o que já existe. E quanto mais esse eleitorado já estiver inclinado a Flávio, menor é o espaço para crescimento adicional. Em outras palavras, o poder do endosso depende do quanto ele consegue mudar o que já está implícito nas pesquisas.

Nossas simulações mostram que três fatores determinam o impacto real do PSD: o tamanho efetivo do seu eleitorado, a taxa de conversão no segundo turno e o grau de disciplina ao endosso. Conversão significa quantos eleitores de Ratinho efetivamente escolhem Lula ou Flávio no segundo turno, em vez de se abster ou votar em branco. Disciplina significa quantos seguem a orientação oficial do partido.

Se o PSD representar 10% do eleitorado, se cerca de 85% desses eleitores votarem em um dos dois no segundo turno e se algo como 65% ou mais seguirem o apoio formal, o efeito pode ser suficiente para deslocar a diferença em mais de dois pontos percentuais. Em um cenário em que a vantagem inicial é pouco superior a dois pontos, isso pode virar a eleição. Se, por outro lado, a disciplina for mais baixa, próxima de 60%, o impacto tende a reduzir a margem, mas não necessariamente inverter o resultado.

Há ainda um paradoxo interessante. Se o eleitorado do PSD já estiver muito alinhado com Flávio — por exemplo, se 70% ou mais já tenderem a ele no segundo turno — o apoio formal tem menos espaço para produzir mudança adicional. Para alterar o resultado, seria necessário elevar essa proporção para patamares muito altos, acima de 80%, algo difícil de alcançar na prática. Isso significa que o PSD é mais decisivo quando seu eleitorado está dividido ou pouco consolidado; quanto mais homogêneo e já alinhado, menor o ganho marginal do endosso.

Outro ponto importante é que o restante do eleitorado fora do trio Lula–Flávio–Ratinho também precisa ser considerado. Para que o cenário agregado do segundo turno se confirme, os votos dos demais candidatos do primeiro turno precisam se distribuir de maneira compatível com o que as pesquisas já mostram. Isso implica que parte significativa desses eleitores migre para Lula e Flávio e que a proporção de indecisos ou brancos diminua. O comportamento desses grupos pode reforçar ou neutralizar o efeito do PSD.

No final das contas, quanto a decisão do PSD de apoiar uma das candidaturas pode contribuir para mudar o resultado? A resposta é condicional. Em uma eleição com vantagem confortável de cinco ou seis pontos, o apoio do PSD tende a alterar apenas a margem. Em um cenário apertado, com diferença de dois pontos ou menos, o partido pode sim ser decisivo, desde que consiga mobilizar seus eleitores e coordenar seu comportamento no segundo turno. O impacto máximo estimado nas simulações gira em torno de três a quatro pontos percentuais no gap entre os candidatos, sob hipóteses fortes de conversão e disciplina. Isso é suficiente para inverter uma disputa equilibrada.

O PSD, portanto, não é automaticamente o fiel da balança, mas pode se tornar. Seu poder não está apenas no tamanho nominal do seu eleitorado, mas na capacidade de transformar preferência difusa em voto coordenado. Em uma eleição polarizada e incerta, essa capacidade pode ser a diferença entre ampliar uma vantagem estreita ou virar completamente o resultado.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Entre a zona cinzenta e a sobrevivência política: o que os números dizem sobre a eleição presidencial de 2026


A menos de um ano do início formal da campanha presidencial de 2026, os dados de opinião pública disponíveis desenham um cenário que está longe de ser trivial. Nem colapso, nem conforto. Nem favoritismo, nem inviabilidade. O incumbente — ou o campo governista — aparece preso em uma faixa historicamente conhecida da política brasileira: a zona cinzenta eleitoral, onde eleições não são vencidas por inércia, mas tampouco estão perdidas de antemão.

A partir de uma consolidação sistemática das principais pesquisas de aprovação e avaliação do governo entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, e da aplicação de um modelo estrutural amplamente utilizado na literatura comparada de eleições, é possível ir além da leitura episódica de pesquisas e responder a perguntas mais difíceis: o que esses números significam eleitoralmente? Como eles se comparam a experiências passadas? E o que indicam sobre as chances reais em 2026?

O ponto de partida: o retrato da opinião pública

Duas dimensões distintas, mas complementares, ajudam a entender a posição atual do governo. A primeira é a aprovação dicotomica do governo; a segunda, a avaliação do governo como administração numa escala péssimo-ótimo.

A média das pesquisas de aprovação  mais recentes indica uma aprovação líquida de −3,3 pontos percentuais — isto é, a desaprovação supera a aprovação, mas por uma margem relativamente estreita. Já quando se observa a avaliação do governo (ótimo/bom menos ruim/péssimo), o quadro é um pouco mais negativo: a avaliação líquida média é de −6,66 pontos, com cerca de 42% classificando o governo como ruim ou péssimo, 36% como ótimo ou bom, e um contingente expressivo — cerca de 20% — avaliando como regular.

Esse dado é central. O tamanho do grupo “regular” indica que, embora haja mais rejeição do que apoio, o julgamento do governo não está totalmente cristalizado. Há descontentamento, mas não uma condenação unívoca. Historicamente, esse é um ponto muito diferente de contextos de colapso político, nos quais o “regular” desaparece e a avaliação negativa se torna hegemônica.

A metodologia: um modelo estrutural, não uma aposta

Para transformar esses números em uma estimativa eleitoral, foi utilizado um modelo fundamental, isto é, um modelo que não tenta prever o resultado com base em intenções de voto momentâneas, mas sim a partir de variáveis estruturais que a literatura mostra estarem associadas ao desempenho de incumbentes.

O modelo parte de uma constante histórica — aproximadamente 46% dos votos válidos no primeiro turno — e aplica correções conforme três fatores principais:

  1. Avaliação ou aprovação líquida do governo, que captura o humor do eleitorado em relação à administração;

  2. Desempenho econômico, aqui representado pelo crescimento do PIB;

  3. Fadiga de governo, medida pelo número de mandatos consecutivos do mesmo campo político.

Os coeficientes utilizados não são arbitrários: derivam de uma combinação de estudos internacionais sobre voto econômico e retrospectivo e da calibração com eleições brasileiras recentes. O objetivo não é produzir um número “preciso”, mas uma estimativa plausível, transparente e reproduzível, acompanhada de intervalo de incerteza.

Como não há ainda dados consolidados de 2026, foram adotadas premissas explícitas e conservadoras: crescimento do PIB em torno de 1,5% e fadiga igual a um mandato (ou seja, tentativa de reeleição, não de continuidade prolongada).

Os resultados: estabilidade em nível baixo

Quando se utiliza a avaliação líquida média de −6,66, o modelo aponta para um desempenho estimado de aproximadamente 42,3% dos votos válidos no primeiro turno, com um intervalo de confiança amplo, entre 38% e 46%.

Quando se usa a aprovação líquida dicotômica, um pouco menos negativa, o resultado sobe marginalmente, para algo próximo de 43,5%. A convergência entre os dois métodos é relevante: por caminhos diferentes, ambos levam à mesma conclusão substantiva. O incumbente ou campo governista não aparece como favorito, mas permanece competitivo.

Do ponto de vista analítico, isso é um resultado robusto. Não se trata de um artefato estatístico isolado, mas de uma posição consistente com diferentes medidas de humor do eleitorado.

Comparações históricas: um lugar conhecido na política brasileira

Talvez a pergunta mais importante seja: o que significa, historicamente, estar na casa dos 42% a 44% no primeiro turno?

Desde a redemocratização, o Brasil oferece poucos, mas elucidativos, exemplos. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso disputou a reeleição com aprovação líquida amplamente positiva e venceu no primeiro turno com folga. Em 2006, Lula chegou ao primeiro turno com votação próxima de 49% e venceu o segundo com relativa tranquilidade.

Os casos realmente comparáveis são outros. Em 2014, Dilma Rousseff obteve cerca de 42% no primeiro turno, com avaliação negativa e fadiga elevada após três mandatos consecutivos do PT. Ainda assim, venceu o segundo turno por margem estreita. Em 2022, Jair Bolsonaro teve cerca de 43%, também com avaliação negativa, e acabou derrotado.

O padrão que emerge é claro: essa faixa de votação não decide a eleição. Ela apenas garante competitividade. O segundo turno, nesses casos, torna-se altamente dependente de fatores contingentes — rejeição relativa entre os candidatos, alianças, capacidade de mobilização e, sobretudo, o comportamento do eleitorado que avaliava o governo como “regular”.

Probabilidade de vitória: honestidade sobre a incerteza

Com base nesses poucos casos comparáveis, a tentativa de atribuir uma “probabilidade exata” de vitória seria intelectualmente desonesta. A abordagem mais rigorosa é reconhecer a limitação da amostra.

Usando uma inferência bayesiana simples, com prior neutro, os casos históricos sugerem algo próximo de 50% de chance de vitória no segundo turno, com um intervalo de incerteza extremamente amplo. Em termos práticos, isso significa que o resultado está em aberto. Não há sinal estrutural de derrota inevitável, mas tampouco indício de vantagem sólida.

O papel da economia e da fadiga

Do ponto de vista da sensibilidade do modelo, dois fatores merecem destaque. O crescimento econômico ajuda, mas não compensa integralmente avaliações negativas persistentes. Um ponto adicional de PIB tende a render cerca de 1,3 ponto percentual no voto, enquanto um ponto de melhora na avaliação líquida adiciona algo entre 0,5 e 0,7 ponto.

Já a fadiga de governo pesa mais do que muitas análises superficiais admitem. Mesmo um único mandato consecutivo impõe um custo estrutural de cerca de 2 pontos percentuais. Em contextos de dois ou mais mandatos consecutivos, esse peso cresce substancialmente, como demonstrado em 2014.

O que os números não dizem — e por que isso importa

É fundamental destacar o que este tipo de análise não captura. O modelo não incorpora nomes de adversários, erros de campanha, escândalos imprevistos, mudanças bruscas no cenário internacional ou choques econômicos. Ele tampouco antecipa a fragmentação ou coordenação da oposição.

O que ele faz é algo diferente — e talvez mais útil neste momento: define o terreno estrutural da disputa. E esse terreno, hoje, é estreito, inclinado e instável.

Conclusão: uma eleição aberta, mas exigente

À luz dos dados disponíveis e da comparação histórica, a eleição de 2026 se desenha como uma disputa aberta, porém exigente para o incumbente. Permanecer na casa dos 42% a 43% significa chegar vivo ao segundo turno, mas não garante nada além disso.

Para transformar competitividade em vantagem, seria necessário reduzir a avaliação negativa líquida, nem que marginalmente, ou contar com uma oposição fragmentada e altamente rejeitada. Caso contrário, a eleição tende a reproduzir o padrão dos pleitos mais apertados da história recente: decidida não por grandes ondas de entusiasmo, mas por movimentos sutis em um eleitorado ambivalente.

Em suma, os números não apontam nem para um desfecho anunciado, nem para uma recuperação automática. Apontam para algo mais desconfortável — e mais típico da democracia brasileira contemporânea: uma eleição que será decidida no detalhe.

A disputa pelo segundo lugar

Se há hoje um ponto de relativo consenso entre analistas, ele diz respeito ao primeiro lugar: Luiz Inácio Lula da Silva aparece de forma consistente, robusta e estatisticamente segura como presença garantida no segundo turno. O verdadeiro drama da eleição, no entanto, não está mais na liderança, mas na corrida feroz, fragmentada e politicamente decisiva pelo segundo lugar.

É nesse espaço — onde se misturam cálculo eleitoral, estratégia partidária e expectativas de poder — que os números passam a contar uma história mais complexa do que aquela oferecida por uma leitura superficial das pesquisas. Para compreendê-la, foi aplicado um modelo que combina dois instrumentos complementares: um agregado bayesiano ponderado, que sintetiza o nível estrutural de cada candidatura, e uma regressão LOESS ponderada, capaz de capturar a dinâmica recente do eleitorado. O resultado revela um cenário em movimento, no qual a vantagem histórica de Lula convive com um reposicionamento relevante entre seus principais adversários.

A metodologia parte de um princípio simples, mas frequentemente negligenciado no debate público: nem todas as pesquisas têm o mesmo peso. Institutos diferem em qualidade histórica, precisão amostral e capacidade de antecipar resultados. Além disso, pesquisas mais antigas carregam menos informação sobre o estado atual da disputa do que levantamentos recentes. Para lidar com essas diferenças, cada observação foi ponderada segundo três critérios: margem de erro (como proxy de precisão estatística), recência (modelada por uma função exponencial de decaimento temporal) e qualidade histórica do instituto, baseada em avaliações empíricas de desempenho eleitoral ao longo da última década.

No caso da análise dinâmica, adotou-se um parâmetro de recência relativamente curto (τ = 10 dias). Isso significa que o modelo “esquece” rapidamente o passado, privilegiando movimentos recentes do eleitorado. Não se trata de previsão eleitoral no sentido estrito, mas de um termômetro sensível às mudanças de curto prazo — algo particularmente útil em um cenário ainda pré-eleitoral, no qual campanhas, alianças e narrativas estão em formação.

Quando se sobrepõe essa regressão LOESS aos níveis do agregado bayesiano estático, o contraste entre estrutura e movimento se torna evidente. No caso de Lula, a leitura é clara: o presidente aparece com uma média agregada em torno de 42%, com intervalos de confiança estreitos e estabilidade notável entre institutos. A curva LOESS, no entanto, mostra uma leve tendência de queda ao longo de janeiro, seguida de uma estabilização. Em termos analíticos, isso sugere não uma perda estrutural de apoio, mas um arrefecimento momentâneo — possivelmente associado à fragmentação do noticiário, à ausência de campanha ativa ou à simples entrada em cena de alternativas competitivas no campo adversário. Ainda assim, mesmo no ponto mais baixo da curva, Lula permanece muito acima do limiar necessário para garantir presença no segundo turno. O primeiro lugar, salvo choque exógeno de grandes proporções, está fora de disputa.



CandidatoLOESS vs BayesDiagnóstico
LulaLOESS < BayesDesaceleração recente
FlávioLOESS ≫ BayesMomentum estrutural
RatinhoLOESS cruza BayesRuído + sensibilidade


É justamente essa segurança de Lula que reorganiza o jogo político. Em eleições majoritárias com dois turnos, o segundo lugar é, na prática, o verdadeiro prêmio estratégico: ele define quem terá acesso ao confronto direto, à polarização final e à possibilidade real de vitória. E é aqui que os dados revelam um cenário muito mais volátil.

Entre os principais postulantes ao segundo lugar, três nomes se destacam na análise comparativa: Flávio Bolsonaro, Ratinho Jr. e, em segundo plano, outros atores regionais ou setoriais. A comparação entre o agregado bayesiano e o LOESS é particularmente reveladora no caso de Flávio Bolsonaro. Enquanto o agregado — que incorpora pesquisas mais antigas — posiciona sua candidatura em torno de 27%, a regressão ponderada pela recência mostra um patamar consistentemente mais alto, entre 32% e 35%, ao longo de praticamente toda a janela analisada. Em outras palavras, Flávio aparece sistematicamente acima do seu próprio nível estrutural histórico.

Esse descolamento não é trivial. Em termos estatísticos, ele indica que as pesquisas mais recentes, especialmente aquelas conduzidas por institutos de melhor desempenho histórico, vêm atribuindo a Flávio Bolsonaro um desempenho superior ao que o “estoque” de dados mais antigos sugeriria. Politicamente, isso aponta para um fenômeno de consolidação: Flávio deixa de ser apenas um nome competitivo no campo bolsonarista e passa a se comportar como um polo de atração estável de votos, capaz de manter patamares elevados mesmo quando o noticiário varia.

A leitura estratégica é clara. Se Lula ocupa o espaço do centro gravitacional da eleição, Flávio Bolsonaro desponta como o principal beneficiário da reorganização do campo oposicionista. Sua curva LOESS não apenas se mantém elevada, como apresenta menor volatilidade do que a de seus concorrentes diretos, sinalizando resiliência. Em eleições anteriores, esse tipo de comportamento estatístico frequentemente antecedeu a cristalização de candidaturas viáveis ao segundo turno.

Ratinho Jr., por sua vez, exibe um perfil bastante diferente. Seu agregado bayesiano o posiciona em torno de 7%, refletindo uma média histórica modesta e limitada. A regressão LOESS, entretanto, conta uma história mais errática: queda gradual ao longo do período seguida de um rebote acentuado nos dias mais recentes, chegando próximo de 10%. À primeira vista, isso poderia ser interpretado como sinal de crescimento. Mas a análise cautelosa recomenda prudência. A série de Ratinho é curta, com menor número de observações efetivas, o que a torna altamente sensível a poucos levantamentos recentes. Em termos estatísticos, trata-se de um típico caso de “momentum frágil”: movimentos rápidos que podem se dissipar com a mesma velocidade com que surgem.

Esse contraste entre Flávio Bolsonaro e Ratinho Jr. ajuda a entender por que a disputa pelo segundo lugar não é apenas uma questão de números absolutos, mas de trajetória. Enquanto Ratinho depende de um ciclo virtuoso ainda incipiente — e sujeito a reversões —, Flávio parece operar em um patamar já consolidado, no qual choques negativos teriam de ser significativos para alterar o equilíbrio atual.

As implicações políticas dessa leitura são profundas. Para o campo governista, a consolidação de Lula no primeiro lugar permite uma estratégia de relativa tranquilidade: a campanha pode ser calibrada para o segundo turno, com foco na rejeição do adversário mais provável. Já para a oposição, o dilema é mais complexo. A fragmentação excessiva aumenta o risco de desperdiçar capital político em candidaturas inviáveis, enquanto a concentração em torno de um nome competitivo pode redefinir alianças, discursos e prioridades programáticas.

Nesse contexto, os dados sugerem que a pergunta central da eleição de 2026 não é mais “quem enfrentará Lula?”, mas “quando e como essa definição se tornará inevitável?”. Se a tendência capturada pelo LOESS se mantiver, a pressão por convergência em torno de Flávio Bolsonaro tende a crescer, seja por meio de alianças formais, seja pelo abandono tácito de projetos com baixa probabilidade de sucesso. Ao mesmo tempo, qualquer sinal de inflexão negativa nessa curva — especialmente se confirmado por institutos de alta qualidade — poderia reabrir o jogo e devolver centralidade a candidaturas alternativas.

É importante, contudo, sublinhar os limites da análise. Nem o agregado bayesiano nem a regressão LOESS pretendem prever o resultado final da eleição. Eles oferecem, antes, uma leitura probabilística do presente, informada pelo passado recente e pela qualidade dos dados disponíveis. Campanhas ainda não começaram oficialmente, eventos exógenos podem alterar o humor do eleitorado e a própria definição dos candidatos pode mudar. Ainda assim, ignorar os sinais que emergem dessas ferramentas seria um erro analítico grave.

Em suma, o quadro que se desenha é o de uma eleição com liderança definida e disputa aberta. Lula caminha com segurança para o segundo turno, sustentado por uma base ampla e estável. A batalha decisiva, porém, se trava logo atrás, onde Flávio Bolsonaro surge, até aqui, como o nome melhor posicionado para ocupar a vaga restante, enquanto Ratinho Jr. e outros competidores tentam converter movimentos pontuais em trajetória consistente. Mais do que um retrato estático, os dados revelam um processo em curso — e é nele que se decidirá o verdadeiro eixo político da eleição de 2026.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Convergência nas intenções de voto de Lula e Flávio



Como a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026 saiu da estabilidade e entrou na zona crítica

Durante boa parte de 2025, a eleição presidencial de 2026 parecia caminhar para um roteiro já conhecido. Luiz Inácio Lula da Silva liderava com relativa folga as pesquisas de intenção de voto para o primeiro turno, enquanto os nomes associados ao bolsonarismo apareciam fragmentados, sem um herdeiro claro e com dificuldades de ultrapassar a casa dos 35%. Esse quadro começou a mudar de forma silenciosa no segundo semestre do ano e ganhou contornos mais claros a partir de dezembro. Quando se observa a evolução das pesquisas ao longo do tempo — e não apenas fotografias isoladas — o que emerge não é uma virada, mas algo talvez mais relevante: uma convergência estrutural entre Lula e Flávio Bolsonaro, hoje o principal representante do clã Bolsonaro no cenário de primeiro turno.

Este artigo analisa essa trajetória comparada, com base em um conjunto amplo de pesquisas nacionais realizadas entre meados de 2025 e fevereiro de 2026, utilizando métodos estatísticos que permitem ir além da simples média aritmética. O objetivo não é prever o resultado da eleição, mas compreender o movimento real do eleitorado: quem está estável, quem cresce, quem perde margem — e por quê.

Do retrato à trajetória: por que olhar o tempo importa

A maior parte da cobertura eleitoral trabalha com rankings pontuais: quem está na frente, quem subiu, quem caiu. Esse tipo de abordagem é útil, mas insuficiente para captar processos políticos que se desenrolam de forma gradual. Quando se analisam séries temporais, a pergunta deixa de ser “quem lidera hoje?” e passa a ser “qual é a direção do movimento?”.

Para isso, reunimos pesquisas de institutos como Datafolha, AtlasIntel, Quaest, Paraná Pesquisas, Ipec, Gerp, Futura/Apex, CNT/MDA e outros, sempre observando três cuidados fundamentais. Primeiro, tratamos cenários alternativos dentro de uma mesma pesquisa como o que eles de fato são: alternativas hipotéticas, não votos simultâneos. Segundo, levamos em conta a qualidade estatística de cada levantamento, ponderando os resultados pela margem de erro informada. Terceiro, incorporamos a dimensão do tempo, atribuindo mais peso às pesquisas mais recentes, por meio de um parâmetro de decaimento temporal (τ), testado em diferentes configurações.

Esses procedimentos nos permitem construir médias bayesianas dinâmicas — estimativas que se atualizam à medida que novas informações entram — e também aplicar técnicas de suavização, como a regressão LOESS, que ajudam a revelar tendências subjacentes sem impor uma forma rígida aos dados.

Lula: estabilidade longa, perda de patamar recente

Quando se observa a trajetória de Lula ao longo de 2025, o padrão dominante é a estabilidade. Durante meses, suas intenções de voto oscilaram em torno de um patamar elevado, geralmente entre 46% e 48% no primeiro turno. Houve momentos de pico — especialmente em dezembro, quando algumas pesquisas registraram Lula acima dos 50% —, mas esses movimentos não se consolidaram. A análise por LOESS, que suaviza as flutuações pontuais, mostra com clareza que esses picos foram episódicos, não estruturais.

A partir do fim de 2025, contudo, o desenho começa a mudar. Em janeiro de 2026, as estimativas mais recentes passam a apontar Lula consistentemente abaixo daquele patamar anterior. Não se trata de uma queda abrupta, tampouco de um colapso, mas de algo politicamente relevante: uma erosão do “colchão” que separava Lula de seus adversários. Em termos estatísticos, o candidato continua líder; em termos dinâmicos, ele deixa de crescer e passa a operar muito próximo do seu teto eleitoral.

Essa leitura é reforçada quando se ajusta um modelo logístico aos dados de Lula. Diferentemente de Flávio Bolsonaro, cuja curva ainda está em fase ascendente, o ajuste para Lula indica saturação. O teto implícito estimado pelo modelo — em torno de 47% — sugere que Lula já converteu praticamente todo o eleitorado disposto a apoiá-lo no primeiro turno. A partir daí, o espaço para avanço orgânico é mínimo; o risco dominante passa a ser a perda marginal, não o ganho.



Flávio Bolsonaro: da dispersão à consolidação

A trajetória de Flávio Bolsonaro é quase o espelho invertido da de Lula. Em meados de 2025, seus números eram modestos e irregulares. Em algumas pesquisas, aparecia na casa dos 30%; em outras, pouco acima disso. Não havia um patamar claro, nem uma tendência inequívoca de crescimento. Essa dispersão refletia um cenário político ainda indefinido: Jair Bolsonaro estava fora do jogo formal, outros nomes do campo conservador testavam espaço, e Flávio ainda não havia se consolidado como herdeiro preferencial do eleitor bolsonarista.

Esse quadro começa a se organizar no final de 2025. A partir de dezembro, as pesquisas passam a mostrar Flávio com mais frequência acima dos 40%. O movimento não é linear — há recuos, empates, resultados discrepantes entre institutos —, mas a direção geral é clara. A LOESS aplicada aos dados revela uma inflexão: depois de um longo período de estagnação, Flávio entra em trajetória de crescimento.



O ponto crucial, contudo, é que esse crescimento não deve ser interpretado como ilimitado. A rejeição a Flávio Bolsonaro gira em torno de 44%, segundo os próprios levantamentos. Isso impõe um teto plausível de aproximadamente 56% para seu desempenho máximo. Quando esse teto é incorporado explicitamente ao modelo — por meio de uma curva logística com limite superior fixado —, o crescimento de Flávio aparece como real, porém lento. Não há evidência estatística de aceleração explosiva; há, sim, um processo gradual de consolidação, condicionado por barreiras claras.

A margem em movimento: quando o jogo muda de fase

Talvez o dado mais revelador não esteja nas curvas individuais, mas na evolução da margem entre os dois candidatos. Ao subtrair o percentual de Flávio do de Lula e observar essa diferença ao longo do tempo, emerge um padrão inequívoco. Em 2025, a margem era amplamente favorável a Lula, frequentemente acima de 8 ou 10 pontos percentuais. Essa vantagem começa a diminuir no final do ano e se contrai de forma acelerada em janeiro de 2026.

A aplicação de uma LOESS ponderada — que dá mais peso às pesquisas mais recentes e mais precisas — mostra que a margem entrou numa zona crítica. Nos dados mais atuais, ela oscila entre empate técnico e uma vantagem pequena para Lula, na faixa de 0 a 3 pontos. Isso não significa que Flávio tenha ultrapassado Lula de forma consistente, mas indica que o sistema eleitoral saiu de um regime de estabilidade e entrou em um regime competitivo.



Essa distinção é fundamental. Eleições raramente mudam de uma hora para outra; elas transitam entre fases. O que os dados sugerem é que a eleição de 2026, no primeiro turno, deixou de ser uma disputa com líder confortável e passou a ser uma corrida sensível a eventos, campanhas e mudanças de percepção.

Metodologia em síntese: o que fizemos — e o que não fizemos

É importante deixar claro o que esta análise faz e o que ela não faz. Não se trata de uma previsão eleitoral, nem de uma aposta em vencedores. O foco está na dinâmica, não no desfecho. Para isso, utilizamos:

  • médias bayesianas ponderadas por margem de erro e recência;

  • diferentes valores de τ para testar sensibilidade ao curto e médio prazo;

  • regressões não paramétricas (LOESS) para evitar impor tendências artificiais;

  • modelos logísticos com teto informado pela rejeição observada.

Ao mesmo tempo, evitamos extrapolações lineares, projeções até a data da eleição ou qualquer suposição forte sobre redistribuição futura de votos. Os dados dizem respeito ao que já ocorreu, não ao que necessariamente ocorrerá.

Conclusão: convergência não é virada, mas muda tudo

A principal conclusão desta análise é simples, mas poderosa: a eleição presidencial de 2026 entrou numa fase de convergência. Lula continua líder no primeiro turno, mas já não dispõe da folga que marcou grande parte de 2025. Flávio Bolsonaro, por sua vez, não vive uma escalada descontrolada, mas consolidou-se como adversário competitivo, reduzindo a distância e pressionando o teto do campo lulista.

Isso não define o resultado da eleição, mas redefine o jogo. Em cenários de convergência, campanhas importam mais, erros custam mais caro e choques — econômicos, políticos ou simbólicos — têm maior impacto. A estabilidade deu lugar à incerteza controlada. E, como tantas vezes na história eleitoral brasileira, é nesse espaço estreito entre teto e crescimento que as eleições são decididas.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Centro unificado pode ser viável eleitoralmente?

 A eleição presidencial de 2026 começa a se delinear sob um padrão já conhecido do eleitor brasileiro: a polarização. De um lado, o lulismo, representado pela figura de Lula e por um campo político consolidado, com forte presença regional e alto reconhecimento nacional. De outro, o bolsonarismo, que mesmo sem Jair Bolsonaro como candidato direto mantém um eleitorado fiel, mobilizado e politicamente ativo. À primeira vista, o cenário parece repetir o roteiro de 2018 e 2022. No entanto, uma análise mais cuidadosa dos dados de intenção de voto, rejeição e simulações estatísticas revela que há, sim, uma fresta pela qual um centro político unificado pode tentar chegar ao segundo turno. Essa possibilidade não é trivial nem automática, mas tampouco é ilusória.

As pesquisas de primeiro turno realizadas entre 2024 e o início de 2026 mostram com consistência dois movimentos simultâneos. O primeiro é a estabilidade relativa dos dois polos. Lula aparece, na média, com algo entre 44% e 46% das intenções de voto, variando pouco ao longo do tempo. O bolsonarismo, quando representado por um nome competitivo do clã, como Flávio Bolsonaro, oscila em torno de 30% a 32%. O segundo movimento é a fragmentação persistente do restante do campo político. Governadores bem avaliados em seus estados, como Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite, surgem nas pesquisas nacionais com percentuais modestos, geralmente entre 2% e 7%, insuficientes, isoladamente, para disputar a vaga no segundo turno.

Esse diagnóstico inicial costuma levar à conclusão apressada de que a polarização está consolidada e de que o centro não tem qualquer chance real. O erro dessa leitura está em tomar a fotografia do momento como destino inevitável. A história recente das eleições brasileiras mostra que o centro raramente perde por rejeição. Ele perde, quase sempre, por dispersão, falta de coordenação e entrada tardia no jogo. Em 2026, a única configuração minimamente competitiva para esse campo passa por uma candidatura única, construída a partir de um acordo claro entre os principais nomes do centro, com divisão prévia de papéis, palanques regionais integrados e mensagem unificada.

Quando se somam as intenções médias de voto de Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite, após a exclusão de cenários metodologicamente problemáticos — como aqueles em que a categoria “outros” ultrapassa 10%, sinalizando questionários mal fechados — chega-se a uma soma bruta próxima de 14% a 15%. Esse número, no entanto, é apenas um ponto de partida teórico. A experiência mostra que processos de unificação não transferem votos de forma perfeita. Parte do eleitorado se dispersa, outra parte migra para candidatos mais conhecidos, e uma fração simplesmente se afasta. Por isso, simulações realistas aplicam um fator de eficiência, que costuma variar entre 60% e 80%. Nesse intervalo, o centro unificado começa operando na faixa de 10% a 12% das intenções de voto.

Isoladamente, esse patamar ainda não é suficiente para alcançar o segundo turno. É nesse ponto que entra o papel de Romeu Zema e da redistribuição interna da direita não bolsonarista. Zema aparece nas pesquisas com cerca de 4% a 5% das intenções de voto, sustentado por uma imagem de gestor e por um eleitorado liberal que não se identifica plenamente nem com Lula nem com o bolsonarismo. As simulações consideram plausível que, em um cenário de voto útil e coordenação clara do centro, a maior parte desse eleitorado migre para a candidatura unificada. Aplicando taxas de migração entre 75% e 90%, o centro ganha de três a quatro pontos percentuais adicionais, passando a operar na casa de 14% a 16%. No limite teórico, com unificação perfeita e migração total, poderia se aproximar de 19% ou 20%.

Mesmo assim, o segundo lugar ainda não estaria garantido. A chave para entender onde está, de fato, a oportunidade do centro não está apenas na intenção de voto, mas nos dados de rejeição. Ao compilar pesquisas de institutos como Datafolha, Quaest, Ipec, Atlas e Futura, surge um padrão claro e consistente. Lula apresenta rejeição média próxima de 49%. Flávio Bolsonaro aparece com cerca de 44%, e outros nomes do clã Bolsonaro frequentemente alcançam níveis iguais ou superiores. Já os candidatos do centro operam em um patamar significativamente mais baixo, geralmente entre 26% e 31%.

Na prática, rejeição funciona como teto eleitoral. Quanto maior ela é, menor a capacidade de crescimento. O bolsonarismo, embora ainda forte, mostra sinais evidentes de saturação. Seu eleitorado é fiel, mas sua capacidade de expansão é limitada. O centro, ao contrário, não está bloqueado estruturalmente. Isso significa que sua baixa intenção de voto atual não reflete rejeição, mas falta de visibilidade, coordenação e enquadramento narrativo.

As simulações indicam que o centro unificado só se torna efetivamente competitivo para o segundo turno quando dois movimentos ocorrem simultaneamente. O primeiro é uma queda relevante do bolsonarismo, da ordem de oito a dez pontos percentuais, seja por desgaste político, erros estratégicos ou aumento da rejeição. O segundo é a coordenação plena do centro desde o início do processo eleitoral, evitando múltiplas candidaturas e sinais ambíguos ao eleitor. Esse deslocamento não exige que os votos migrem para Lula. Pelo contrário, os dados sugerem que, diante de um enfraquecimento do clã Bolsonaro, uma parcela expressiva do eleitorado busca uma alternativa fora da esquerda, e é nesse espaço que o centro pode se posicionar.

Do ponto de vista estratégico, os números apontam uma conclusão clara. O centro não deve tentar imitar a polarização, nem disputar a guerra simbólica que opõe lulismo e bolsonarismo. Entrar nesse terreno significa jogar um jogo em que os dois polos já têm vantagem. A alternativa é desarmar a polarização, explorando o cansaço do eleitor com o conflito permanente, a instabilidade institucional e a política orientada por identidades rígidas. A narrativa mais promissora passa por estabilidade, previsibilidade, competência administrativa e foco no futuro, não por ajustes de contas com o passado.

Governadores têm, nesse contexto, uma vantagem comparativa evidente. Eles podem falar de gestão concreta, resultados mensuráveis, políticas públicas implementadas e pragmatismo. Em uma eleição dominada por símbolos e afetos, a aposta do centro precisa ser a racionalidade aplicada à vida cotidiana do eleitor, sem desprezar a dimensão emocional, mas sem se deixar capturar por ela.

Os dados, portanto, não autorizam otimismo ingênuo. No cenário atual, o centro unificado não está automaticamente no segundo turno. Mas também não está condenado à irrelevância. A combinação de baixa rejeição, potencial de coordenação e espaço aberto por um eventual desgaste do bolsonarismo faz do centro uma variável real da eleição de 2026, algo que não ocorria com a mesma clareza em disputas anteriores. A polarização existe e continuará a estruturar o debate. A questão central é se, desta vez, ela poderá ser atravessada por uma alternativa que fale menos de inimigos e mais de soluções.