terça-feira, 31 de março de 2026

A engrenagem da virada: como a aprovação do governo alimenta o crescimento de Flávio

 


A dinâmica recente da corrida eleitoral revela um fenômeno menos visível do que uma simples troca de liderança nas pesquisas. Não se trata apenas de um candidato subindo e outro caindo. O que emerge dos dados é a presença de um mecanismo causal mais profundo, que conecta a avaliação do governo ao comportamento dos eleitores indecisos — e, por fim, ao crescimento de Flávio.

Durante boa parte de 2025, o cenário parecia relativamente estável. Lula mantinha vantagem consistente, com margens que, em muitos momentos, ultrapassavam dois dígitos. Essa estabilidade, no entanto, começou a se desfazer gradualmente. Ao longo de 2026, as pesquisas passaram a mostrar uma aproximação contínua entre os candidatos, culminando em um empate técnico com leve inclinação para Flávio.

A interpretação mais imediata poderia atribuir essa mudança a fatores conjunturais ou a oscilações normais de opinião. Mas a análise conjunta de três dimensões — intenção de voto, avaliação de governo e tamanho do eleitorado indeciso — sugere algo mais estruturado. Há uma sequência lógica que organiza esse movimento.

O ponto de partida está na avaliação do governo. Ao longo do período analisado, a aprovação líquida — diferença entre avaliações positivas e negativas — apresentou um padrão claro. Depois de uma melhora no final de 2025, aproximando-se de zero, a avaliação volta a se deteriorar no início de 2026, retornando a níveis significativamente negativos, na faixa de -10 pontos.

Esse movimento, isoladamente, já teria impacto sobre o desempenho eleitoral de um incumbente. Modelos estatísticos simples mostram que cada ponto de variação na avaliação líquida se traduz, em média, em cerca de 0,27 ponto percentual na intenção de voto de Lula. Ou seja, uma piora de cinco pontos na avaliação tende a reduzir sua votação em aproximadamente 1,3 ponto.

O efeito sobre Flávio, no entanto, é muito menor quando medido diretamente. A mesma variação de cinco pontos na avaliação se traduz em algo próximo de 0,25 ponto percentual em sua intenção de voto. Isso sugere que o canal direto — avaliação influenciando imediatamente a escolha pelo opositor — é relativamente fraco.

Mas essa leitura está incompleta se não considerarmos o papel dos indecisos.

Ao mesmo tempo em que a avaliação do governo piora, o contingente de eleitores indecisos começa a se reduzir. Em 2025, esse grupo frequentemente representava algo entre 15% e 20% do eleitorado. Ao longo de 2026, esse número cai para níveis mais próximos de 7% a 11%. Esse encolhimento indica um processo de decisão tardia, no qual eleitores anteriormente indecisos passam a escolher um candidato.

É nesse ponto que o mecanismo causal se revela. A piora da avaliação não apenas reduz o apoio direto ao incumbente. Ela também alimenta um ambiente de insatisfação difusa que acelera a decisão dos indecisos. E, crucialmente, essa decisão não é neutra.

A análise empírica mostra que, quando os indecisos diminuem, o ganho não se distribui de forma equilibrada entre os candidatos. Flávio captura uma parcela significativamente maior desse fluxo. Em termos aproximados, cerca de dois terços dos eleitores que deixam a indecisão acabam migrando para ele, enquanto o restante se distribui para Lula.

Esse padrão permite decompor o efeito total da avaliação em dois componentes distintos. O primeiro é direto: a piora da avaliação reduz o voto em Lula. O segundo é indireto: a perda de Lula se transforma em um conjunto de eleitores disponíveis, que passam pela condição de indecisos e, posteriormente, são absorvidos de forma desproporcional por Flávio.

Simulações ajudam a quantificar esse processo. Considerando uma queda de cinco pontos na avaliação líquida, o efeito direto sobre Lula é uma perda de cerca de 1,34 ponto percentual. Flávio, por sua vez, teria um pequeno efeito direto negativo, próximo de -0,26 ponto. No entanto, quando se incorpora o fluxo dos indecisos — assumindo que 65% desse eleitorado migrante vá para Flávio — o efeito indireto adiciona cerca de 0,87 ponto ao seu desempenho.

O resultado líquido é contraintuitivo à primeira vista: apesar de não se beneficiar diretamente da piora da avaliação, Flávio termina o processo com um ganho total de aproximadamente 0,62 ponto percentual. Ao mesmo tempo, Lula perde 1,34 ponto. O diferencial entre os dois se amplia em quase dois pontos percentuais.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que a corrida eleitoral pode mudar de direção mesmo sem uma transferência direta massiva de votos de um candidato para outro. A chave está na intermediação dos indecisos, que funcionam como um reservatório temporário de eleitores em transição.

A robustez desse processo fica ainda mais clara quando se introduz incerteza no modelo. Utilizando simulações probabilísticas baseadas na variabilidade observada nas pesquisas, é possível estimar a probabilidade de liderança de cada candidato sob diferentes cenários de avaliação do governo.

No cenário atual, com avaliação negativa e estável, Flávio apresenta cerca de 72% de probabilidade de liderar. Se a avaliação piorar cinco pontos, essa probabilidade sobe para praticamente 100%. Por outro lado, uma melhora de três pontos já seria suficiente para inverter o cenário, reduzindo a chance de liderança de Flávio para pouco mais de 20%. Com uma melhora de cinco pontos, sua probabilidade cai para menos de 5%.

Esses resultados permitem identificar um ponto crítico no sistema. Uma melhora de aproximadamente 1,3 ponto na avaliação líquida do governo seria suficiente para neutralizar a vantagem atual de Flávio. Esse valor funciona como um limiar: abaixo dele, o ambiente continua favorecendo o opositor; acima dele, o incumbente recupera vantagem estatística.

A implicação é clara. A eleição não está sendo decidida apenas pelo tamanho das bases eleitorais consolidadas, mas pelo comportamento de uma faixa relativamente pequena e volátil do eleitorado. Essa faixa responde de maneira sensível à avaliação do governo e, ao se mover, altera o equilíbrio da disputa.

Mais do que uma disputa de preferências estáticas, o que se observa é um sistema dinâmico, em que pequenas variações na percepção do governo geram efeitos amplificados por meio da redistribuição dos indecisos. É essa engrenagem — avaliação, indecisão e realocação — que tem sustentado a virada observada nas pesquisas.

Em última instância, o que os dados mostram é que a eleição está sendo decidida na margem. E, nesse terreno, a direção do fluxo importa mais do que o tamanho do estoque. Enquanto a avaliação do governo permanecer negativa e pressionada, o mecanismo continuará operando na mesma direção. Se esse quadro se alterar, a engrenagem pode girar no sentido oposto com a mesma velocidade.

É essa instabilidade controlada, governada por relações estatísticas relativamente simples, que define o momento atual da corrida eleitoral.

A virada silenciosa: como a queda dos indecisos está favorecendo Flávio

 


Ao longo de 2025, a disputa presidencial em um eventual segundo turno parecia ter um favorito claro. Lula aparecia com vantagem consistente em praticamente todas as pesquisas, muitas vezes com margens confortáveis que sugeriam uma corrida relativamente estável. No entanto, à medida que 2026 avança, os dados mostram uma transformação profunda — e silenciosa — no comportamento do eleitorado. O que antes era uma liderança consolidada tornou-se uma disputa apertada, com sinais crescentes de que a dinâmica da eleição mudou de direção.

Essa mudança não é fruto de um único evento ou de oscilações pontuais. Ela emerge de um padrão consistente observado ao longo de dezenas de pesquisas realizadas entre meados de 2025 e o final de março de 2026. Ao agregar esses levantamentos por meio de um modelo estatístico que leva em conta precisão, recência e histórico de acerto dos institutos, o retrato atual aponta para um empate técnico, com leve vantagem para Flávio.

Hoje, a estimativa central indica Lula com cerca de 45,4% das intenções de voto e Flávio com 45,9%. A diferença é pequena, dentro da margem de erro agregada, mas carrega um significado importante: a corrida deixou de ter um líder claro. Mais do que isso, a trajetória recente sugere que essa aproximação não é aleatória. Ela segue uma tendência definida.

Quando se observa a evolução temporal das pesquisas por meio de técnicas de suavização, o desenho que emerge é bastante nítido. Ao longo de 2025, Lula mantém vantagem elevada, frequentemente acima de dois dígitos. No início de 2026, essa vantagem começa a se reduzir de forma gradual. Já em março, as curvas dos dois candidatos convergem e praticamente se encontram. Esse ponto de cruzamento marca o que, em termos analíticos, pode ser descrito como uma mudança estrutural na corrida.



A pergunta central passa então a ser: o que está por trás dessa virada?

Uma parte importante da resposta está nos eleitores que ainda não haviam escolhido um candidato. Em 2025, o contingente de indecisos era elevado, oscilando em torno de 15% a 18% em diversas pesquisas. Esse volume representava uma reserva significativa de votos em aberto, capaz de sustentar incerteza e permitir variações amplas nas intenções de voto.

Ao longo dos meses, porém, esse grupo começou a encolher. No início de 2026, os indecisos já mostram tendência de queda. Em março, passam a se concentrar na faixa de aproximadamente 7% a 11%. Esse movimento indica um processo de cristalização do eleitorado: menos pessoas em dúvida, mais eleitores com escolha definida.



Mas a redução dos indecisos, por si só, não explica a direção da corrida. O ponto crucial é para onde esses votos estão indo. A análise estatística revela um padrão assimétrico. Sempre que o número de indecisos diminui, ambos os candidatos tendem a crescer, mas não na mesma intensidade. Flávio apresenta uma relação muito mais forte com essa redução, indicando que está capturando uma parcela maior dos eleitores que finalmente se decidem.

Esse padrão ajuda a entender por que a vantagem de Lula foi se dissipando ao longo do tempo. Seu eleitorado parece mais consolidado desde o início, com menor dependência de ganhos marginais recentes. Já Flávio, partindo de um patamar mais baixo, encontra na conversão dos indecisos uma fonte contínua de crescimento.

Para avaliar o impacto potencial dessa dinâmica, é possível simular cenários alternativos. Considerando que o nível atual de indecisos gira em torno de 8,7%, uma redução para 5% implicaria a liberação de aproximadamente 3,7 pontos percentuais do eleitorado. Mantido o padrão observado — com cerca de dois terços desses eleitores migrando para Flávio — o resultado seria uma mudança significativa no equilíbrio da disputa.

Nesse cenário, Lula subiria para aproximadamente 46,7%, enquanto Flávio alcançaria cerca de 48,3%. A diferença, que hoje está próxima de meio ponto percentual, se ampliaria para algo em torno de 1,6 ponto. Embora ainda não represente uma vantagem decisiva, já colocaria a eleição fora do campo do empate técnico estrito.

O mais relevante é que essa mudança ocorre sem a necessidade de grandes choques políticos ou eventos extraordinários. Ela decorre de um processo gradual de decisão do eleitorado. À medida que menos pessoas permanecem indecisas, a estrutura da corrida se torna mais definida — e, nas condições atuais, essa definição parece favorecer Flávio.

Isso não significa que o resultado esteja determinado. A eleição permanece competitiva e sensível a mudanças de contexto, campanhas e eventos inesperados. Além disso, qualquer alteração no padrão de distribuição dos indecisos poderia modificar rapidamente o quadro.

Ainda assim, os dados apontam para uma direção clara. A corrida presidencial passou por uma inflexão relevante. O que antes era uma vantagem consistente de Lula transformou-se em um cenário de equilíbrio, com sinais de leve inclinação para o adversário. E essa transformação está intimamente ligada a um fator muitas vezes tratado como secundário: o comportamento dos indecisos.

Em um ambiente em que cada ponto percentual pode ser decisivo, entender para onde vão esses votos em aberto não é apenas um detalhe técnico. É, possivelmente, a chave para compreender quem está, de fato, na frente da disputa.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A partir de qual limiar Ratinho passa a ser percebido como alternativa viável a Flavio?

 A análise desenvolvida ao longo deste artigo parte de uma modelagem formal do comportamento eleitoral baseada em Equilíbrio Quantal de Resposta (QRE), adaptada ao contexto do primeiro turno presidencial brasileiro. O objetivo central foi compreender, de maneira estruturada, em que condições um candidato como Ratinho Jr. poderia emergir como uma alternativa viável ao segundo polo competitivo representado por Flávio Bolsonaro, dentro de um sistema já fortemente condicionado por coordenação estratégica e concentração de preferências.

O modelo adotado assume que os eleitores não são perfeitamente racionais, mas respondem probabilisticamente às utilidades percebidas das alternativas. Essa resposta probabilística é governada por um operador logit, cujo parâmetro de racionalidade, τ, controla o grau de sensibilidade do eleitor às diferenças de utilidade. Valores mais baixos de τ geram distribuições mais dispersas, enquanto valores mais altos induzem concentração em candidatos com maior utilidade agregada. A calibração empírica utilizada fixa τ = 8, valor que produz um equilíbrio do tipo duopólio, consistente com os padrões observados em pesquisas recentes.

A utilidade de cada candidato foi construída a partir de duas dimensões principais: uma dimensão informacional e uma dimensão estratégica. A dimensão informacional, representada pelo parâmetro θ₃, incorpora a saliência do candidato entre os eleitores que o conhecem. Na forma funcional adotada, essa saliência se reduz ao próprio indicador “conhece e votaria” (CEV), dado que a construção S = (CEV + CENV)·IC colapsa algebraicamente para CEV. Assim, o modelo base atribui peso central ao apoio bruto informado entre eleitores que conhecem o candidato.

A dimensão estratégica é introduzida por meio do termo W, que mede a viabilidade relativa do candidato em comparação ao líder do cenário. Esse termo captura o fenômeno de coordenação eleitoral — frequentemente chamado de voto útil — em que eleitores ajustam suas escolhas com base na percepção de quem tem chances reais de vitória. O peso desse componente, θ₄, foi calibrado empiricamente a partir da distribuição observada de intenção de voto, resultando em um valor de aproximadamente 0,11. Esse valor indica que a viabilidade estratégica é relevante, mas não dominante: ela atua como um fator de correção, e não como a principal força do sistema.

A utilidade final de cada candidato assume, portanto, a forma Uᵢ = 0,595·(CEV/100) + 0,11·W. A partir dessas utilidades, o modelo gera probabilidades de escolha via função logit, produzindo uma distribuição de voto consistente com o equilíbrio QRE.

Aplicando essa estrutura ao cenário empírico analisado, observa-se a consolidação de um sistema claramente duopolista. Lula aparece como o polo dominante, combinando alta saliência informacional e máxima viabilidade estratégica. Flávio Bolsonaro surge como o único competidor efetivamente próximo, com utilidade agregada suficientemente elevada para sustentar coordenação eleitoral em seu favor. Ratinho Jr., por sua vez, ocupa uma posição intermediária: não é irrelevante, mas está distante da fronteira de viabilidade. Zema e outros nomes permanecem em posição periférica.

A questão central do artigo — a viabilidade de Ratinho como alternativa a Flávio — foi explorada por meio de simulações contrafactuais que modelam o impacto de endossos políticos, especificamente a retirada de candidaturas como Caiado e Eduardo Leite em seu favor. Como os cenários empíricos já excluem esses nomes, a transferência não pode ser modelada diretamente via intenção de voto; em vez disso, ela é incorporada como melhora nos indicadores de imagem, especialmente no CEV.

As simulações mostram que, mesmo sob um cenário de endosso forte — em que Ratinho eleva significativamente seu nível de apoio entre os que o conhecem — o impacto sobre sua probabilidade QRE é moderado. Ele passa de aproximadamente 9,7% para algo entre 12% e 13%. Isso ocorre porque o modelo, na calibração base, responde principalmente a duas forças: apoio informado e viabilidade estratégica. Como o termo W permanece relativamente baixo, a melhora de imagem não é suficiente para alterar drasticamente o equilíbrio.

A análise do diferencial de utilidade entre Ratinho e Flávio permite identificar um limiar crítico para viabilidade percebida. No estado atual, o gap de utilidade entre os dois é elevado, o que impede a coordenação estratégica em torno de Ratinho. O modelo sugere que esse gap precisa cair para algo na faixa de 0,05 a 0,08 para que o eleitor passe a enxergá-lo como uma alternativa plausível. Em termos práticos, isso corresponde a Ratinho atingir algo próximo de 20% de intenção de voto, ou reduzir a distância para Flávio para cerca de 8 a 10 pontos percentuais.

Esse ponto é fundamental: a viabilidade não é uma função linear do crescimento eleitoral. Existe um efeito de limiar. Abaixo de certo patamar, o candidato é percebido como irrelevante para fins de coordenação; acima dele, passa a ser considerado uma opção estratégica. Esse mecanismo é típico de modelos QRE com componente estratégico, nos quais pequenas mudanças próximas ao limiar podem gerar efeitos desproporcionais no comportamento agregado.

Para que Ratinho não apenas se torne viável, mas efetivamente competitivo com Flávio, o modelo indica que seria necessário um avanço ainda maior, possivelmente para a faixa de 25% a 30% de intenção de voto. Nesse nível, o termo W se aproxima do patamar necessário para reduzir substancialmente o diferencial de utilidade, permitindo que parte do eleitorado estratégico reavalie suas escolhas.

Um aspecto importante é que, na calibração adotada, os parâmetros associados a rejeição líquida (θ₁) e confiança (θ₂) foram mantidos em zero. Isso implica que o modelo não responde diretamente a mudanças na rejeição ou na eficiência de conversão entre os que conhecem o candidato. Caso esses parâmetros fossem ativados, o impacto de um endosso político poderia ser maior, especialmente se ele reduzisse rejeição ou aumentasse confiança. No entanto, a escolha por mantê-los zerados reflete uma estratégia de parcimônia e aderência empírica, evitando sobreposição de efeitos já capturados pelo CEV.

Em síntese, os resultados indicam que a viabilidade de Ratinho como alternativa a Flávio depende de dois movimentos simultâneos: aumento significativo de seu apoio informado e, sobretudo, elevação de sua viabilidade percebida no sistema. Endossos partidários contribuem, mas têm efeito limitado se não forem capazes de alterar o posicionamento estratégico do candidato no campo competitivo. O modelo mostra que o sistema eleitoral analisado já opera sob forte coordenação, e romper essa estrutura exige atingir patamares específicos de competitividade.

A conclusão principal é que Ratinho pode, sim, consolidar-se como uma terceira via relevante, especialmente com apoio partidário unificado. No entanto, tornar-se uma alternativa viável ao segundo polo exige ultrapassar um limiar claro de percepção estratégica. Sem isso, seu crescimento tende a ser absorvido pelo equilíbrio duopolista existente, que continua favorecendo Lula e Flávio como os principais pontos de coordenação do eleitorado.

terça-feira, 10 de março de 2026

Pode Ratinho Jr. chegar ao segundo turno? Uma análise probabilística da corrida presidencial

 A possibilidade de Ratinho Jr. substituir Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial tem aparecido com frequência crescente no debate político. A hipótese surge principalmente porque a campanha eleitoral ainda não começou oficialmente — e a história das eleições brasileiras mostra que movimentos importantes nas intenções de voto costumam ocorrer justamente durante o período de propaganda eleitoral, debates e mobilização partidária. A pergunta central, portanto, é simples: dadas as pesquisas disponíveis hoje, quão provável é que Ratinho consiga ultrapassar Flávio e chegar ao segundo turno até outubro?

Para responder a essa questão de forma rigorosa, foi realizada uma análise estatística baseada na agregação bayesiana de pesquisas eleitorais realizadas entre março de 2025 e março de 2026. O objetivo foi estimar, primeiro, o estado atual da corrida presidencial e, em seguida, calcular a probabilidade de Ratinho ultrapassar Flávio Bolsonaro ao longo dos próximos meses. O resultado geral indica que essa possibilidade existe, mas é estatisticamente pequena no cenário atual.

A análise utilizou dezenas de pesquisas conduzidas por institutos como Datafolha, AtlasIntel, Genial/Quaest, Paraná Pesquisas, Futura, Ideia Big Data, Real Time Big Data e Gerp. Muitos desses levantamentos apresentam múltiplos cenários com combinações diferentes de candidatos. Para evitar que uma mesma amostra influencie o agregado várias vezes, foi aplicada uma regra estatística simples: quando uma pesquisa apresenta vários cenários baseados na mesma coleta de dados, o peso total dessa pesquisa é dividido entre os cenários apresentados. Esse procedimento impede que um único levantamento tenha influência excessiva no resultado final.

Cada pesquisa foi ponderada com base em três fatores principais. O primeiro é a precisão estatística. Pesquisas com margens de erro menores — geralmente associadas a amostras maiores — recebem maior peso. A variância aproximada de cada levantamento foi estimada dividindo a margem de erro por 1,96, o que corresponde ao desvio padrão implícito de um intervalo de confiança de 95%. O peso associado à precisão é proporcional ao inverso da variância: quanto menor a incerteza da pesquisa, maior seu peso no agregado.

O segundo fator é a recência. Pesquisas mais antigas tendem a refletir menos o estado atual da opinião pública. Por isso, cada levantamento recebe um peso temporal baseado em um decaimento exponencial. Nesse modelo, a influência de uma pesquisa diminui gradualmente à medida que o tempo passa. A meia-vida informacional adotada foi de quinze dias, valor típico em agregadores eleitorais. Isso significa que pesquisas realizadas há mais de um mês ainda têm influência, mas significativamente menor do que levantamentos mais recentes.

O terceiro fator é a qualidade histórica dos institutos de pesquisa. O modelo utiliza um índice de desempenho baseado no erro médio observado em eleições anteriores. Institutos que historicamente apresentaram maior precisão recebem um peso adicional, enquanto aqueles com histórico mais irregular têm influência ligeiramente reduzida. O peso final de cada observação resulta da multiplicação desses três fatores: precisão, recência e qualidade histórica.

Com essa metodologia, foi possível estimar uma média posterior bayesiana das intenções de voto no primeiro turno. O retrato que emerge das pesquisas mais recentes é relativamente estável. Lula aparece liderando a disputa com aproximadamente 40,8% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro ocupa o segundo lugar com cerca de 33,5%. Ratinho Jr. surge em terceiro lugar, com aproximadamente 8,7%. Outros nomes aparecem com porcentagens menores: Tarcísio de Freitas em torno de 6,4%, Romeu Zema com cerca de 4,5% e Ronaldo Caiado próximo de 4,1%. Os demais candidatos aparecem com níveis residuais de apoio.

A distância entre o segundo e o terceiro colocados é um dos elementos mais importantes dessa análise. Atualmente, Flávio Bolsonaro possui uma vantagem média de aproximadamente 24,8 pontos percentuais sobre Ratinho Jr. Em termos eleitorais, trata-se de uma diferença muito grande. Mesmo considerando a incerteza estatística das pesquisas, os intervalos de confiança dos dois candidatos quase não se sobrepõem. Isso sugere que o segundo lugar de Flávio está relativamente consolidado no momento.

Além do nível atual de apoio, o modelo também estima a evolução das intenções de voto ao longo do tempo. Nos últimos meses, a tendência média mensal indica um crescimento moderado de Flávio Bolsonaro, de cerca de 1,2 ponto percentual por mês. Ratinho Jr. também apresenta crescimento, mas em ritmo muito menor — aproximadamente 0,3 ponto percentual por mês. Lula, por sua vez, registra uma leve queda média de cerca de meio ponto por mês. Essas tendências indicam que, embora Ratinho tenha ganhado algum espaço ao longo do último ano, a diferença em relação ao segundo colocado não está diminuindo rapidamente.

Para avaliar o que pode acontecer até a eleição, foi utilizada simulação Monte Carlo, um método amplamente empregado em modelagem eleitoral. A técnica consiste em gerar milhares de trajetórias possíveis para a evolução das intenções de voto, incorporando tanto a tendência recente quanto a incerteza estatística das pesquisas. O modelo também considera a volatilidade histórica observada em eleições presidenciais brasileiras. Essa volatilidade foi estimada em aproximadamente três pontos percentuais por mês, valor compatível com o comportamento das séries eleitorais nas últimas décadas.

No total, foram simuladas duzentas mil trajetórias eleitorais possíveis entre março e outubro de 2026. Em cada uma dessas simulações, observou-se se Ratinho Jr. ultrapassaria Flávio Bolsonaro no primeiro turno. O resultado foi claro: em cerca de 2,3% das simulações, Ratinho conseguia assumir o segundo lugar até a eleição. Em outras palavras, a probabilidade estimada de Ratinho substituir Flávio no segundo turno é de aproximadamente dois por cento.

A simulação também permite estimar a distribuição provável das posições finais. Em cerca de 91% dos cenários simulados, Lula termina o primeiro turno em primeiro lugar. Flávio Bolsonaro aparece em segundo lugar em aproximadamente 88% das simulações. Ratinho Jr. termina em terceiro lugar na grande maioria dos cenários — cerca de 86%. Apenas em uma pequena fração das simulações ele consegue ultrapassar Flávio e alcançar o segundo turno.

É importante lembrar que a campanha eleitoral oficial ainda não começou. Historicamente, o período de propaganda eleitoral gratuita, debates televisivos e mobilização partidária pode provocar mudanças significativas nas intenções de voto. Estudos sobre eleições brasileiras indicam que candidatos podem ganhar entre cinco e quinze pontos percentuais durante a campanha. Além disso, o número de indecisos costuma cair rapidamente quando a eleição se aproxima.

A história política brasileira oferece alguns exemplos de mudanças relevantes durante a campanha. Em 1989, Lula ultrapassou Leonel Brizola na reta final e chegou ao segundo turno contra Fernando Collor. Em 2014, Aécio Neves ultrapassou Marina Silva durante a campanha e terminou o primeiro turno em segundo lugar. Esses episódios mostram que viradas são possíveis. No entanto, elas geralmente envolvem movimentos de dez a quinze pontos percentuais — não diferenças próximas de vinte e cinco pontos, como a observada atualmente entre Flávio e Ratinho.

Para que Ratinho Jr. chegasse ao segundo turno no cenário atual, seria necessário um deslocamento eleitoral muito grande. Movimentos dessa magnitude na história política brasileira geralmente ocorrem apenas quando há eventos disruptivos: a retirada de um candidato competitivo, um grande escândalo político, mudanças bruscas na conjuntura econômica ou realinhamentos partidários significativos. Sem um choque desse tipo, a dinâmica das pesquisas tende a ser gradual.

Isso não significa que a eleição esteja decidida. O início da campanha oficial ainda pode alterar o equilíbrio da disputa, especialmente se debates, alianças ou eventos políticos mudarem a percepção do eleitorado. No entanto, os dados disponíveis até agora indicam que a corrida pelo segundo turno permanece dominada por Flávio Bolsonaro. Ratinho Jr. aparece como um candidato relevante no campo intermediário da disputa, mas ainda distante do patamar necessário para competir diretamente pela segunda vaga.

Em termos probabilísticos, a análise sugere que a chance de Ratinho chegar ao segundo turno no lugar de Flávio é pequena, embora não inexistente. No cenário atual das pesquisas, essa probabilidade gira em torno de dois por cento. Isso significa que, a menos que a dinâmica política se transforme significativamente nos próximos meses, o cenário mais provável continua sendo um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.

sexta-feira, 6 de março de 2026

A zona crítica da aprovação: o que os dados históricos dizem sobre as chances do incumbente na eleição presidencial

As eleições presidenciais brasileiras costumam ser interpretadas à luz de pesquisas de intenção de voto. No entanto, uma das variáveis que historicamente mais explica o desempenho eleitoral de governos é anterior às próprias pesquisas eleitorais: a avaliação do governo, especialmente sua aprovação líquida — a diferença entre os percentuais de aprovação e reprovação. Quando analisada ao longo do tempo, essa métrica revela padrões consistentes sobre as condições estruturais que favorecem ou dificultam a reeleição de um governo ou a vitória de um candidato governista.

Os dados mais recentes de avaliação do governo mostram um cenário negativo, mas não uniforme. A última leitura isolada indica uma aprovação líquida de cerca de –20 pontos percentuais, o que sugeriria uma situação política bastante desfavorável. Entretanto, quando se consideram as pesquisas recentes em conjunto — ponderando as mais novas com maior peso, em um procedimento de agregação bayesiana — o quadro se torna menos dramático. A estimativa agregada mais plausível coloca a aprovação líquida atual em torno de –8,5 pontos percentuais, com intervalo provável entre aproximadamente –12 e –4.

Essa diferença é crucial para a interpretação eleitoral. No Brasil, pequenos deslocamentos na aprovação líquida podem alterar significativamente as expectativas de voto do incumbente. A razão é simples: existe uma relação relativamente estável entre aprovação do governo e voto no candidato associado a ele. Diversos estudos comparativos encontram que cada ponto adicional de aprovação líquida tende a gerar algo entre 0,5 e 0,7 ponto de voto presidencial. Em termos práticos, isso significa que um aumento de dez pontos na aprovação líquida costuma resultar em um ganho de cinco a sete pontos no primeiro turno.

Aplicando essa relação à situação atual, a aprovação agregada de cerca de –8,5 pontos sugere que o candidato incumbente estaria hoje em uma faixa de aproximadamente 40% de voto no primeiro turno, com intervalo plausível entre cerca de 33% e 48%, dependendo da evolução política e econômica nos próximos meses. Essa estimativa não indica favoritismo inequívoco, mas tampouco aponta para colapso eleitoral. Em vez disso, ela coloca o incumbente em uma posição típica de eleições competitivas brasileiras: forte o suficiente para chegar ao segundo turno com chances reais, mas vulnerável a mudanças no ambiente político.

A comparação com eleições anteriores ajuda a contextualizar esse cenário. Em 2014, por exemplo, a então presidente Dilma Rousseff entrou na eleição com níveis de aprovação positivos, embora modestos, e terminou o primeiro turno com 41,6% dos votos. Em 2022, Jair Bolsonaro enfrentava aprovação líquida negativa — estimada em torno de –10 pontos — e obteve 43,2% no primeiro turno. Em ambos os casos, a eleição seguiu para um segundo turno competitivo e polarizado. Já em contextos mais favoráveis, como as reeleições de Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998 ou o ciclo político de Luiz Inácio Lula da Silva em meados dos anos 2000, a aprovação do governo estava claramente positiva, e os candidatos governistas alcançaram votações próximas ou superiores a 50%.

Essas comparações permitem extrair algumas regularidades empíricas importantes sobre o funcionamento das eleições presidenciais no Brasil. A primeira delas é que existe um limiar eleitoral informal em torno de 40% dos votos no primeiro turno. Candidatos associados ao governo que ficam abaixo dessa marca tendem a entrar no segundo turno em posição frágil, enquanto aqueles que a superam costumam permanecer competitivos. O patamar não garante vitória, mas separa cenários de viabilidade daqueles em que o governo enfrenta dificuldades estruturais.

Uma segunda regularidade diz respeito à própria aprovação líquida. Os dados históricos sugerem que há três zonas políticas distintas. Quando a aprovação líquida do governo está acima de +5 pontos, o candidato governista geralmente aparece como favorito ou pelo menos líder na disputa. Quando a aprovação se situa entre –10 e +5, o cenário tende a ser altamente competitivo e sensível a eventos de campanha. Já quando a aprovação cai abaixo de –20 pontos, o incumbente normalmente enfrenta sérias dificuldades eleitorais, muitas vezes entrando na disputa com menos de 35% das intenções de voto.

Essa estrutura ajuda a entender por que a diferença entre usar apenas a última pesquisa e utilizar uma média agregada muda tanto a interpretação do momento político. A leitura isolada de –20 colocaria o governo na chamada “zona de colapso eleitoral”, associada a períodos como o final do governo de Michel Temer, quando a impopularidade recorde praticamente inviabilizou a candidatura governista em 2018. Já a estimativa agregada próxima de –8,5 coloca o governo em uma zona intermediária, mais semelhante àquela enfrentada por incumbentes que conseguiram manter competitividade eleitoral.

Outra regularidade importante é que aprovação líquida próxima de zero costuma gerar resultados eleitorais entre 40% e 45% dos votos. Esse padrão aparece repetidamente em diferentes ciclos políticos e sugere que a base eleitoral do governo tende a refletir aproximadamente a proporção da população que avalia positivamente a gestão. Mesmo quando a aprovação é negativa, uma parcela significativa do eleitorado ainda prefere a continuidade ou permanece indecisa, o que mantém o candidato governista em patamar relativamente alto.

A fragmentação partidária brasileira também desempenha um papel decisivo nesse processo. Diferentemente de sistemas bipartidários, em que a aprovação do governo se traduz mais diretamente em voto, o Brasil apresenta múltiplas candidaturas competitivas no primeiro turno. Isso faz com que o candidato governista possa avançar ao segundo turno mesmo com níveis relativamente modestos de apoio. Ao mesmo tempo, essa fragmentação limita a conversão direta de popularidade em voto majoritário imediato.

Outro padrão recorrente é que recuperações rápidas de aprovação são possíveis, mas raras, especialmente no último ano de mandato. Na história recente, mudanças expressivas na popularidade de governos geralmente estiveram associadas a choques econômicos positivos, programas de transferência de renda ou crises políticas envolvendo adversários. Embora esses eventos não possam ser descartados, a tendência histórica é que a aprovação se mova lentamente, consolidando a posição eleitoral do governo meses antes da votação.

Também se observa que eleições presidenciais brasileiras raramente são decididas no primeiro turno quando o governo enfrenta aprovação modesta. Desde a redemocratização, apenas duas disputas — as de 1994 e 1998 — foram vencidas na primeira rodada, ambas em contextos de aprovação amplamente positiva e estabilidade econômica após a implantação do Plano Real. Na maioria dos casos, mesmo governos relativamente populares acabam enfrentando um segundo turno.

Considerando esses padrões, a situação atual do incumbente pode ser descrita como estruturalmente competitiva, porém incerta. A aprovação líquida agregada próxima de –8,5 coloca o governo em um ponto crítico da política brasileira: suficientemente próximo da neutralidade para permitir recuperação, mas ainda abaixo do nível que historicamente caracteriza favoritismo. Pequenas variações na percepção pública do governo — especialmente se relacionadas à economia — podem deslocar o candidato alguns pontos percentuais para cima ou para baixo, alterando significativamente as probabilidades eleitorais.

Se a aprovação líquida subir para algo próximo de –5 ou –3 pontos, o modelo sugere que o voto do incumbente poderia ultrapassar os 43% ou 44%, aproximando-se de cenários observados em eleições disputadas. Por outro lado, se a aprovação cair novamente para níveis próximos de –15 ou –20, a projeção eleitoral recuaria para algo entre 30% e 35%, faixa historicamente associada a derrotas mais prováveis.

Em síntese, a análise histórica indica que o fator decisivo não é apenas o nível atual de popularidade do governo, mas a direção em que essa popularidade se move ao longo do ano eleitoral. A política brasileira mostra repetidamente que eleições são sensíveis a pequenas mudanças de humor público, sobretudo quando o país entra no período de campanha com um eleitorado dividido. No momento, os dados disponíveis sugerem um cenário aberto: o incumbente permanece dentro da zona de competitividade estrutural, mas depende de melhora na percepção do governo para transformar essa posição em vantagem eleitoral clara.

terça-feira, 3 de março de 2026

A dinâmica invisível: como a queda dos indecisos ajuda a explicar o avanço de Flávio

 As pesquisas mais recentes mostram dois movimentos simultâneos na corrida presidencial: a redução consistente do percentual de indecisos e o crescimento de Flávio Bolsonaro. À primeira vista, a associação parece intuitiva: à medida que o eleitor decide, alguém precisa absorver esses votos.




Mas a pergunta central não é se isso acontece. É como acontece.

Os dados permitem ir além da fotografia das pesquisas e entrar na mecânica da dinâmica eleitoral. Ao aplicar modelos vetoriais autorregressivos (VAR), que capturam a interação temporal entre as séries, é possível observar não apenas correlação, mas precedência dinâmica: se mudanças nos indecisos ajudam a prever movimentos futuros dos candidatos.

E os resultados revelam algo mais sofisticado do que uma simples redistribuição.

O método: por que usar VAR?

Modelos tradicionais de regressão mostram relações contemporâneas — isto é, como variáveis se movem juntas no mesmo momento. Foi o que indicou, inicialmente, que tanto Lula quanto Flávio tendem a crescer quando os indecisos diminuem.

Mas eleições não se movem instantaneamente. Eleitores não decidem todos no mesmo dia. Parte do movimento é gradual.

O modelo VAR permite capturar exatamente isso: como variações passadas em uma variável influenciam as demais ao longo dos períodos seguintes. Em termos práticos, ele responde à pergunta:

Quando os indecisos caem hoje, quem tende a crescer amanhã?

A seleção automática de defasagens — via critérios AIC, BIC, HQIC e FPE — apontou como especificação ótima um VAR com quatro defasagens (VAR(4)). Para fins de robustez, também foi estimado um VAR(2), modelo mais parcimonioso.

Teste de Granger: quem antecipa quem?

O teste de causalidade de Granger não estabelece causalidade estrutural, mas identifica precedência temporal estatisticamente significativa.

No modelo VAR(2):

  • A queda dos indecisos antecede crescimento de Flávio (p = 0,0016).

  • A queda dos indecisos também antecede crescimento de Lula (p = 0,0052).

Ou seja, ambos absorvem indecisos quando o movimento é analisado com duas defasagens.

Mas no modelo com defasagem ótima, VAR(4), o padrão se torna mais assimétrico:

  • Indecisos → Flávio: altamente significativo (p = 0,0011).

  • Indecisos → Lula: perde significância estatística (p = 0,0877).

O efeito dinâmico permanece robusto para Flávio, mas se torna menos consistente para Lula quando a dinâmica de médio prazo é incorporada.

Isso sugere que parte da redistribuição pró-Lula ocorre de forma mais imediata, enquanto o avanço de Flávio apresenta maior persistência ao longo dos períodos.

Função Impulso–Resposta: o que acontece após um choque?

Para tornar a dinâmica mais concreta, foi estimada a função impulso–resposta (IRF), simulando o efeito de um choque de 1 ponto percentual nos indecisos.

Como o interesse real é na queda dos indecisos, basta inverter o sinal dos resultados.

No VAR(2), um choque equivalente a -1 p.p. em indecisos implica:

Flávio

  • Aproximadamente +0,44 p.p. no período seguinte.

  • Cerca de +1,14 p.p. acumulados nos três primeiros períodos.

Lula

  • Cerca de +0,34 p.p. no primeiro período.

  • Efeito acumulado pequeno e menos persistente ao longo dos períodos seguintes.

A diferença crucial não está apenas na magnitude inicial, mas na persistência. O avanço de Flávio tende a se sustentar ao longo dos períodos seguintes. Em Lula, parte do efeito se dissipa.

Crescimento estrutural versus redistribuição

Outro elemento central é que Flávio apresenta componente autônomo de crescimento ao longo do tempo — identificado nas regressões múltiplas com controle temporal.

Isso significa que:

  • Parte do crescimento de Flávio decorre da absorção de indecisos.

  • Parte decorre de tendência própria independente.

Lula, por sua vez, apresenta crescimento mais associado à redistribuição, com menor evidência de impulso autônomo recente.

Em termos simplificados:

Flávio cresce por dois canais.
Lula cresce principalmente por um.

O cenário com indecisos em 5%

Se o percentual atual de indecisos (em torno de 10%) cair para 5%, a dinâmica estimada sugere:

  • Ambos os polos crescerão.

  • A magnitude dependerá do ritmo da queda.

  • O efeito acumulado tende a favorecer Flávio em termos de persistência.

Isso não implica automaticamente mudança de liderança. Mas implica compressão de margem.

Conclusão: polarização em consolidação

Os dados indicam que a redução dos indecisos não é neutra. Ela alimenta os polos competitivos.

A diferença está na dinâmica.

Flávio apresenta:

  • Crescimento estrutural próprio.

  • Absorção dinâmica persistente de indecisos.

Lula apresenta:

  • Forte elasticidade contemporânea.

  • Menor persistência dinâmica no modelo ampliado.

O que isso sugere é menos uma virada e mais um processo de consolidação. À medida que a incerteza diminui, o sistema tende a se organizar em torno das candidaturas percebidas como competitivas. A eleição ainda está aberta. Mas a dinâmica recente indica que a queda dos indecisos pode não apenas reduzir a margem — pode também alterar a velocidade da disputa. E em campanhas eleitorais, velocidade importa tanto quanto posição.