quarta-feira, 18 de março de 2026

A partir de qual limiar Ratinho passa a ser percebido como alternativa viável a Flavio?

 A análise desenvolvida ao longo deste artigo parte de uma modelagem formal do comportamento eleitoral baseada em Equilíbrio Quantal de Resposta (QRE), adaptada ao contexto do primeiro turno presidencial brasileiro. O objetivo central foi compreender, de maneira estruturada, em que condições um candidato como Ratinho Jr. poderia emergir como uma alternativa viável ao segundo polo competitivo representado por Flávio Bolsonaro, dentro de um sistema já fortemente condicionado por coordenação estratégica e concentração de preferências.

O modelo adotado assume que os eleitores não são perfeitamente racionais, mas respondem probabilisticamente às utilidades percebidas das alternativas. Essa resposta probabilística é governada por um operador logit, cujo parâmetro de racionalidade, τ, controla o grau de sensibilidade do eleitor às diferenças de utilidade. Valores mais baixos de τ geram distribuições mais dispersas, enquanto valores mais altos induzem concentração em candidatos com maior utilidade agregada. A calibração empírica utilizada fixa τ = 8, valor que produz um equilíbrio do tipo duopólio, consistente com os padrões observados em pesquisas recentes.

A utilidade de cada candidato foi construída a partir de duas dimensões principais: uma dimensão informacional e uma dimensão estratégica. A dimensão informacional, representada pelo parâmetro θ₃, incorpora a saliência do candidato entre os eleitores que o conhecem. Na forma funcional adotada, essa saliência se reduz ao próprio indicador “conhece e votaria” (CEV), dado que a construção S = (CEV + CENV)·IC colapsa algebraicamente para CEV. Assim, o modelo base atribui peso central ao apoio bruto informado entre eleitores que conhecem o candidato.

A dimensão estratégica é introduzida por meio do termo W, que mede a viabilidade relativa do candidato em comparação ao líder do cenário. Esse termo captura o fenômeno de coordenação eleitoral — frequentemente chamado de voto útil — em que eleitores ajustam suas escolhas com base na percepção de quem tem chances reais de vitória. O peso desse componente, θ₄, foi calibrado empiricamente a partir da distribuição observada de intenção de voto, resultando em um valor de aproximadamente 0,11. Esse valor indica que a viabilidade estratégica é relevante, mas não dominante: ela atua como um fator de correção, e não como a principal força do sistema.

A utilidade final de cada candidato assume, portanto, a forma Uᵢ = 0,595·(CEV/100) + 0,11·W. A partir dessas utilidades, o modelo gera probabilidades de escolha via função logit, produzindo uma distribuição de voto consistente com o equilíbrio QRE.

Aplicando essa estrutura ao cenário empírico analisado, observa-se a consolidação de um sistema claramente duopolista. Lula aparece como o polo dominante, combinando alta saliência informacional e máxima viabilidade estratégica. Flávio Bolsonaro surge como o único competidor efetivamente próximo, com utilidade agregada suficientemente elevada para sustentar coordenação eleitoral em seu favor. Ratinho Jr., por sua vez, ocupa uma posição intermediária: não é irrelevante, mas está distante da fronteira de viabilidade. Zema e outros nomes permanecem em posição periférica.

A questão central do artigo — a viabilidade de Ratinho como alternativa a Flávio — foi explorada por meio de simulações contrafactuais que modelam o impacto de endossos políticos, especificamente a retirada de candidaturas como Caiado e Eduardo Leite em seu favor. Como os cenários empíricos já excluem esses nomes, a transferência não pode ser modelada diretamente via intenção de voto; em vez disso, ela é incorporada como melhora nos indicadores de imagem, especialmente no CEV.

As simulações mostram que, mesmo sob um cenário de endosso forte — em que Ratinho eleva significativamente seu nível de apoio entre os que o conhecem — o impacto sobre sua probabilidade QRE é moderado. Ele passa de aproximadamente 9,7% para algo entre 12% e 13%. Isso ocorre porque o modelo, na calibração base, responde principalmente a duas forças: apoio informado e viabilidade estratégica. Como o termo W permanece relativamente baixo, a melhora de imagem não é suficiente para alterar drasticamente o equilíbrio.

A análise do diferencial de utilidade entre Ratinho e Flávio permite identificar um limiar crítico para viabilidade percebida. No estado atual, o gap de utilidade entre os dois é elevado, o que impede a coordenação estratégica em torno de Ratinho. O modelo sugere que esse gap precisa cair para algo na faixa de 0,05 a 0,08 para que o eleitor passe a enxergá-lo como uma alternativa plausível. Em termos práticos, isso corresponde a Ratinho atingir algo próximo de 20% de intenção de voto, ou reduzir a distância para Flávio para cerca de 8 a 10 pontos percentuais.

Esse ponto é fundamental: a viabilidade não é uma função linear do crescimento eleitoral. Existe um efeito de limiar. Abaixo de certo patamar, o candidato é percebido como irrelevante para fins de coordenação; acima dele, passa a ser considerado uma opção estratégica. Esse mecanismo é típico de modelos QRE com componente estratégico, nos quais pequenas mudanças próximas ao limiar podem gerar efeitos desproporcionais no comportamento agregado.

Para que Ratinho não apenas se torne viável, mas efetivamente competitivo com Flávio, o modelo indica que seria necessário um avanço ainda maior, possivelmente para a faixa de 25% a 30% de intenção de voto. Nesse nível, o termo W se aproxima do patamar necessário para reduzir substancialmente o diferencial de utilidade, permitindo que parte do eleitorado estratégico reavalie suas escolhas.

Um aspecto importante é que, na calibração adotada, os parâmetros associados a rejeição líquida (θ₁) e confiança (θ₂) foram mantidos em zero. Isso implica que o modelo não responde diretamente a mudanças na rejeição ou na eficiência de conversão entre os que conhecem o candidato. Caso esses parâmetros fossem ativados, o impacto de um endosso político poderia ser maior, especialmente se ele reduzisse rejeição ou aumentasse confiança. No entanto, a escolha por mantê-los zerados reflete uma estratégia de parcimônia e aderência empírica, evitando sobreposição de efeitos já capturados pelo CEV.

Em síntese, os resultados indicam que a viabilidade de Ratinho como alternativa a Flávio depende de dois movimentos simultâneos: aumento significativo de seu apoio informado e, sobretudo, elevação de sua viabilidade percebida no sistema. Endossos partidários contribuem, mas têm efeito limitado se não forem capazes de alterar o posicionamento estratégico do candidato no campo competitivo. O modelo mostra que o sistema eleitoral analisado já opera sob forte coordenação, e romper essa estrutura exige atingir patamares específicos de competitividade.

A conclusão principal é que Ratinho pode, sim, consolidar-se como uma terceira via relevante, especialmente com apoio partidário unificado. No entanto, tornar-se uma alternativa viável ao segundo polo exige ultrapassar um limiar claro de percepção estratégica. Sem isso, seu crescimento tende a ser absorvido pelo equilíbrio duopolista existente, que continua favorecendo Lula e Flávio como os principais pontos de coordenação do eleitorado.

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