quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Centro unificado pode ser viável eleitoralmente?

 A eleição presidencial de 2026 começa a se delinear sob um padrão já conhecido do eleitor brasileiro: a polarização. De um lado, o lulismo, representado pela figura de Lula e por um campo político consolidado, com forte presença regional e alto reconhecimento nacional. De outro, o bolsonarismo, que mesmo sem Jair Bolsonaro como candidato direto mantém um eleitorado fiel, mobilizado e politicamente ativo. À primeira vista, o cenário parece repetir o roteiro de 2018 e 2022. No entanto, uma análise mais cuidadosa dos dados de intenção de voto, rejeição e simulações estatísticas revela que há, sim, uma fresta pela qual um centro político unificado pode tentar chegar ao segundo turno. Essa possibilidade não é trivial nem automática, mas tampouco é ilusória.

As pesquisas de primeiro turno realizadas entre 2024 e o início de 2026 mostram com consistência dois movimentos simultâneos. O primeiro é a estabilidade relativa dos dois polos. Lula aparece, na média, com algo entre 44% e 46% das intenções de voto, variando pouco ao longo do tempo. O bolsonarismo, quando representado por um nome competitivo do clã, como Flávio Bolsonaro, oscila em torno de 30% a 32%. O segundo movimento é a fragmentação persistente do restante do campo político. Governadores bem avaliados em seus estados, como Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite, surgem nas pesquisas nacionais com percentuais modestos, geralmente entre 2% e 7%, insuficientes, isoladamente, para disputar a vaga no segundo turno.

Esse diagnóstico inicial costuma levar à conclusão apressada de que a polarização está consolidada e de que o centro não tem qualquer chance real. O erro dessa leitura está em tomar a fotografia do momento como destino inevitável. A história recente das eleições brasileiras mostra que o centro raramente perde por rejeição. Ele perde, quase sempre, por dispersão, falta de coordenação e entrada tardia no jogo. Em 2026, a única configuração minimamente competitiva para esse campo passa por uma candidatura única, construída a partir de um acordo claro entre os principais nomes do centro, com divisão prévia de papéis, palanques regionais integrados e mensagem unificada.

Quando se somam as intenções médias de voto de Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite, após a exclusão de cenários metodologicamente problemáticos — como aqueles em que a categoria “outros” ultrapassa 10%, sinalizando questionários mal fechados — chega-se a uma soma bruta próxima de 14% a 15%. Esse número, no entanto, é apenas um ponto de partida teórico. A experiência mostra que processos de unificação não transferem votos de forma perfeita. Parte do eleitorado se dispersa, outra parte migra para candidatos mais conhecidos, e uma fração simplesmente se afasta. Por isso, simulações realistas aplicam um fator de eficiência, que costuma variar entre 60% e 80%. Nesse intervalo, o centro unificado começa operando na faixa de 10% a 12% das intenções de voto.

Isoladamente, esse patamar ainda não é suficiente para alcançar o segundo turno. É nesse ponto que entra o papel de Romeu Zema e da redistribuição interna da direita não bolsonarista. Zema aparece nas pesquisas com cerca de 4% a 5% das intenções de voto, sustentado por uma imagem de gestor e por um eleitorado liberal que não se identifica plenamente nem com Lula nem com o bolsonarismo. As simulações consideram plausível que, em um cenário de voto útil e coordenação clara do centro, a maior parte desse eleitorado migre para a candidatura unificada. Aplicando taxas de migração entre 75% e 90%, o centro ganha de três a quatro pontos percentuais adicionais, passando a operar na casa de 14% a 16%. No limite teórico, com unificação perfeita e migração total, poderia se aproximar de 19% ou 20%.

Mesmo assim, o segundo lugar ainda não estaria garantido. A chave para entender onde está, de fato, a oportunidade do centro não está apenas na intenção de voto, mas nos dados de rejeição. Ao compilar pesquisas de institutos como Datafolha, Quaest, Ipec, Atlas e Futura, surge um padrão claro e consistente. Lula apresenta rejeição média próxima de 49%. Flávio Bolsonaro aparece com cerca de 44%, e outros nomes do clã Bolsonaro frequentemente alcançam níveis iguais ou superiores. Já os candidatos do centro operam em um patamar significativamente mais baixo, geralmente entre 26% e 31%.

Na prática, rejeição funciona como teto eleitoral. Quanto maior ela é, menor a capacidade de crescimento. O bolsonarismo, embora ainda forte, mostra sinais evidentes de saturação. Seu eleitorado é fiel, mas sua capacidade de expansão é limitada. O centro, ao contrário, não está bloqueado estruturalmente. Isso significa que sua baixa intenção de voto atual não reflete rejeição, mas falta de visibilidade, coordenação e enquadramento narrativo.

As simulações indicam que o centro unificado só se torna efetivamente competitivo para o segundo turno quando dois movimentos ocorrem simultaneamente. O primeiro é uma queda relevante do bolsonarismo, da ordem de oito a dez pontos percentuais, seja por desgaste político, erros estratégicos ou aumento da rejeição. O segundo é a coordenação plena do centro desde o início do processo eleitoral, evitando múltiplas candidaturas e sinais ambíguos ao eleitor. Esse deslocamento não exige que os votos migrem para Lula. Pelo contrário, os dados sugerem que, diante de um enfraquecimento do clã Bolsonaro, uma parcela expressiva do eleitorado busca uma alternativa fora da esquerda, e é nesse espaço que o centro pode se posicionar.

Do ponto de vista estratégico, os números apontam uma conclusão clara. O centro não deve tentar imitar a polarização, nem disputar a guerra simbólica que opõe lulismo e bolsonarismo. Entrar nesse terreno significa jogar um jogo em que os dois polos já têm vantagem. A alternativa é desarmar a polarização, explorando o cansaço do eleitor com o conflito permanente, a instabilidade institucional e a política orientada por identidades rígidas. A narrativa mais promissora passa por estabilidade, previsibilidade, competência administrativa e foco no futuro, não por ajustes de contas com o passado.

Governadores têm, nesse contexto, uma vantagem comparativa evidente. Eles podem falar de gestão concreta, resultados mensuráveis, políticas públicas implementadas e pragmatismo. Em uma eleição dominada por símbolos e afetos, a aposta do centro precisa ser a racionalidade aplicada à vida cotidiana do eleitor, sem desprezar a dimensão emocional, mas sem se deixar capturar por ela.

Os dados, portanto, não autorizam otimismo ingênuo. No cenário atual, o centro unificado não está automaticamente no segundo turno. Mas também não está condenado à irrelevância. A combinação de baixa rejeição, potencial de coordenação e espaço aberto por um eventual desgaste do bolsonarismo faz do centro uma variável real da eleição de 2026, algo que não ocorria com a mesma clareza em disputas anteriores. A polarização existe e continuará a estruturar o debate. A questão central é se, desta vez, ela poderá ser atravessada por uma alternativa que fale menos de inimigos e mais de soluções.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Agregação bayesiana, rejeição e indecisão: uma modelagem realista das chances de Lula e Flávio

 A disputa presidencial de 2026 começa a ganhar contornos mais nítidos à medida que as pesquisas de intenção de voto e rejeição se acumulam e já temos 3 importantes pesquisas divulgadas este ano. Embora ainda distante do dia da eleição, o volume e a diversidade dos levantamentos já permitem uma análise mais estruturada do cenário de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro

Em vez de olhar pesquisas isoladas, muitas vezes contraditórias entre si, utilizou-se um modelo de agregação bayesiana. Esse tipo de abordagem, amplamente empregado em análises eleitorais internacionais, busca extrair um “sinal comum” a partir de múltiplas fontes, ponderando cada pesquisa de acordo com três critérios centrais: precisão estatística (tamanho da amostra e margem de erro), recência (quanto mais antiga a pesquisa, menor seu peso) e qualidade histórica do instituto (com base em seu desempenho passado em eleições reais). O objetivo não é prever o futuro com certeza, mas estimar, de forma transparente, qual é o retrato mais provável do eleitorado dado o conjunto de informações disponíveis hoje.

No caso específico desta análise, o peso temporal foi calibrado com um parâmetro de decaimento de 15 dias, o que significa que pesquisas muito recentes — especialmente as de janeiro de 2026 — têm influência significativamente maior do que levantamentos realizados no meio ou no início de 2025. Além disso, institutos com histórico de maior precisão recebem um peso adicional, enquanto institutos sem avaliação histórica conhecida são levemente penalizados. Todas essas escolhas foram explicitadas para evitar o problema comum de modelos “caixa-preta”, que entregam números finais sem explicar como chegaram até eles.

Aplicado esse modelo às pesquisas de intenção de voto de segundo turno, o primeiro resultado relevante foi a consolidação de uma liderança consistente de Lula. A média agregada aponta o presidente na casa de 48% a 49% das intenções de voto, contra algo em torno de 43% a 44% para Flávio Bolsonaro. A diferença, em torno de cinco pontos percentuais, aparece de forma recorrente quando se pondera o conjunto dos levantamentos, e não apenas os mais favoráveis a um ou outro candidato. Mais importante ainda, os intervalos de incerteza calculados pelo modelo praticamente não se sobrepõem, o que indica que, do ponto de vista estatístico, a liderança de Lula não é fruto de ruído amostral.

Entretanto, intenção de voto é apenas uma parte da história. Em eleições polarizadas, especialmente no segundo turno, a rejeição dos candidatos costuma desempenhar um papel decisivo. Por isso, o segundo passo da análise foi agregar também as pesquisas de rejeição, utilizando o mesmo arcabouço metodológico. O resultado mostrou um quadro mais equilibrado, mas ainda assim desfavorável a Flávio Bolsonaro. A rejeição média de Lula ficou próxima de 49%, enquanto a de Flávio Bolsonaro apareceu pouco abaixo, em torno de 47%. Em termos simples, Lula é ligeiramente mais rejeitado, mas a diferença é pequena, da ordem de dois a três pontos percentuais.

Essa constatação é importante porque ajuda a explicar um fenômeno frequente nas pesquisas recentes: Lula lidera as intenções de voto, mas não dispara. Sua base é grande e relativamente sólida, mas enfrenta um teto imposto pela rejeição elevada. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem rejeição um pouco menor, o que em tese poderia ajudá-lo a crescer entre eleitores indecisos ou pouco engajados. A pergunta central, então, passa a ser: esse diferencial de rejeição é suficiente para virar o jogo?

Para responder a isso, foi necessário dar um terceiro passo analítico, incorporando explicitamente o comportamento dos indecisos, dos eleitores que votam em branco ou nulo e dos que se abstêm. Aqui entram pressupostos comportamentais baseados em dados históricos do segundo turno no Brasil. Desde pelo menos 2010, o país apresenta um padrão relativamente estável: cerca de 20% de abstenção e algo entre 7% e 10% de votos brancos e nulos. Em outras palavras, aproximadamente 28% a 30% do eleitorado não participa do cômputo final dos votos válidos.

As pesquisas, no entanto, costumam apresentar uma categoria chamada “indecisos” que, na prática, mistura eleitores genuinamente em dúvida com pessoas que já decidiram não votar ou anular o voto. Com base na evidência empírica de eleições passadas, adotou-se um pressuposto conservador: apenas 30% dos indecisos medidos nas pesquisas seriam, de fato, indecisos ativos, enquanto os 70% restantes tenderiam a se converter em abstenção, branco ou nulo. Esse pressuposto não é arbitrário; ele reflete o comportamento observado em segundos turnos recentes e evita superestimar a quantidade de votos disponíveis para uma virada de última hora.

Uma vez isolado esse contingente reduzido de indecisos “reais”, a pergunta seguinte foi como eles se distribuiriam entre os candidatos. A regra adotada foi simples e intuitiva: a distribuição seria proporcional à aceitabilidade de cada candidato, definida como um menos a taxa de rejeição. Como Flávio Bolsonaro tem rejeição um pouco menor, ele se sairia ligeiramente melhor nessa redistribuição. Na prática, porém, o efeito é pequeno. Dos cerca de 4,5 pontos percentuais do eleitorado considerados verdadeiramente indecisos, Flávio ganharia apenas cerca de um décimo de ponto percentual a mais do que Lula.

Quando esse ajuste é aplicado à intenção de voto agregada, o quadro geral praticamente não se altera. Lula continua na frente, com algo em torno de 52% a 53% dos votos válidos, contra 47% a 48% de Flávio Bolsonaro. A margem final simulada permanece na faixa de cinco pontos percentuais. Em outras palavras, mesmo levando em conta a rejeição e um cenário realista — e até cauteloso — sobre o comportamento dos indecisos, a vantagem de Lula não se dissolve.

A partir desse encadeamento de análises, é possível fazer uma avaliação mais clara das chances reais de Flávio Bolsonaro vencer Lula no segundo turno, dadas as pesquisas atuais. Estatisticamente, a situação de Flávio não é desesperadora, mas é claramente desfavorável. Para reverter o cenário, não basta contar com a rejeição ligeiramente maior de Lula. Seria necessário, ao mesmo tempo, reduzir sua própria rejeição de forma significativa, ampliar sua base de intenção de voto inicial e, sobretudo, alterar o padrão histórico de participação eleitoral no segundo turno — por exemplo, convertendo uma parcela muito maior dos indecisos em votos válidos a seu favor.

Em termos probabilísticos, isso significa que a vitória de Flávio Bolsonaro, nas condições atuais, depende de eventos relativamente improváveis: uma mudança clara de tendência nas pesquisas, um choque político relevante ou um erro sistemático e persistente dos institutos de pesquisa contra ele. Nada disso é impossível, mas tampouco pode ser considerado o cenário central à luz dos dados disponíveis hoje.

Em síntese, o que a análise mostra é que Lula entra, neste momento, como favorito consistente para o segundo turno de 2026. Sua liderança nas intenções de voto é real, estatisticamente robusta e resiste quando se levam em conta rejeição, indecisão e abstenção. Flávio Bolsonaro permanece competitivo no sentido estrito — não está fora do jogo —, mas enfrenta um caminho estreito para a vitória. Se as eleições fossem hoje, e se o comportamento do eleitorado seguisse padrões semelhantes aos observados nas últimas décadas, as chances reais de vitória estariam claramente mais próximas do lado de Lula do que do lado de seu adversário.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Theta: a métrica silenciosa que explica os limites e as vitórias nas eleições presidenciais

 A análise eleitoral brasileira costuma oscilar entre dois extremos: de um lado, a leitura puramente intuitiva das pesquisas de intenção de voto; de outro, modelos estatísticos sofisticados que, muitas vezes, perdem contato com a realidade empírica do eleitor. Entre esses dois polos existe um espaço analítico particularmente fértil, ocupado por métricas simples, transparentes e altamente informativas. Uma delas é o theta (θ), um parâmetro que não pretende substituir modelos econométricos nem “adivinhar” eleições, mas que se mostrou extremamente eficaz para compreender limites, potenciais e dinâmicas reais de competição eleitoral no Brasil.

Este artigo descreve o que é o theta, como ele é calculado, para que serve, como deve ser interpretado e quais foram seus valores históricos nas eleições presidenciais brasileiras, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Por fim, aplica o conceito ao cenário eleitoral de 2026, mostrando por que o theta ajuda a explicar, de forma elegante, o equilíbrio atual da disputa.

Theta é, essencialmente, uma medida de eficiência eleitoral. Ele parte de uma constatação simples: nenhum candidato concorre por 100% dos votos possíveis. Sempre existe um subconjunto do eleitorado que declara rejeição firme — pessoas que afirmam não votar naquele nome “de jeito nenhum”. Esse contingente funciona como uma barreira estrutural. O eleitorado realmente disputável é, portanto, o complemento da rejeição. Theta mede quanto desse eleitorado disponível o candidato consegue, de fato, converter em voto.

Formalmente, o cálculo é direto. Define-se theta como:

θ = Voto / (100 – Rejeição)

Onde “Voto” é o percentual obtido pelo candidato em determinado turno e “Rejeição” é o percentual do eleitorado que declara rejeitar esse candidato. Se um candidato tem 40% dos votos e 50% de rejeição, seu eleitorado disponível é de 50%. Seu theta, nesse caso, é 0,80. Isso significa que ele conseguiu converter 80% das pessoas que não o rejeitam em voto efetivo.

Essa simplicidade é uma das grandes virtudes do theta. Ele não depende de regressões complexas, não exige séries longas e não incorpora pressupostos difíceis de verificar. Ao mesmo tempo, ele captura um aspecto central do comportamento eleitoral: a capacidade de um candidato de organizar, mobilizar e reter o eleitorado que está potencialmente ao seu alcance.

É importante notar o que theta não é. Ele não é um coeficiente causal no sentido econométrico clássico. Não aparece diretamente em regressões de voto, não é estimado por mínimos quadrados e não “explica” por si só por que um eleitor vota ou deixa de votar em alguém. Theta é uma variável derivada, uma métrica de desempenho. Ele serve para diagnosticar situações, impor limites de plausibilidade a previsões e comparar candidatos em termos de eficiência relativa.

A interpretação do theta é bastante intuitiva quando se observam seus valores. Em linhas gerais, quanto maior o theta, maior a eficiência eleitoral. Valores abaixo de 0,50 indicam candidaturas fracas ou mal coordenadas, que deixam grande parte do eleitorado disponível disperso entre indecisos, abstenção ou adversários. Valores entre 0,55 e 0,65 costumam caracterizar candidaturas competitivas, mas ainda incompletas, típicas de opositores fragmentados. A faixa entre 0,70 e 0,80 é a zona clássica de candidaturas fortes no Brasil, especialmente incumbentes ou nomes amplamente conhecidos. Valores acima de 0,85 são raros e costumam aparecer apenas em contextos de forte polarização ou segundo turno.

Uma das grandes utilidades do theta é diferenciar situações que, à primeira vista, parecem iguais. Dois candidatos podem ter exatamente o mesmo percentual de voto, mas níveis muito diferentes de rejeição. O candidato com maior rejeição estará operando com um theta mais alto, mais próximo do seu limite estrutural, enquanto o outro pode ter amplo espaço de crescimento. A análise tradicional de piso e teto observa apenas os resultados finais; o theta observa o mecanismo interno que produz esses resultados.

Quando se olha para a história eleitoral brasileira, o theta mostra uma regularidade impressionante. No primeiro turno, praticamente todos os vencedores presidenciais desde 1994 operaram com theta acima de 0,70. Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998, apresentou valores em torno de 0,75 a 0,78. Lula, em 2002, venceu com um theta próximo de 0,71, ainda relativamente baixo para padrões de incumbência, mas suficiente num contexto de rejeição moderada. Em 2006, já como incumbente popular, Lula elevou seu theta para algo próximo de 0,80. Dilma Rousseff, tanto em 2010 quanto em 2014, situou-se na faixa de 0,75 a 0,76 no primeiro turno. Jair Bolsonaro, em 2018, apresentou theta ao redor de 0,82, beneficiado por forte polarização e colapso do centro político.

O caso de 2022 é atípico. Lula venceu o primeiro turno com rejeição altíssima, próxima de 50%, mas ainda assim alcançou cerca de 48% dos votos válidos, o que implica um theta excepcionalmente elevado, próximo de 0,95. Esse valor não deve ser interpretado como um novo padrão, mas como resultado de uma compressão extrema do sistema político, em que quase todo o eleitorado disponível se organizou em torno de dois polos antagônicos.

No segundo turno, o comportamento do theta muda de patamar. A lógica binária da disputa reduz drasticamente as opções do eleitor, e o voto “contra” passa a ter peso maior. Isso faz com que theta aumente quase automaticamente. Historicamente, vencedores do segundo turno no Brasil apresentam theta raramente abaixo de 0,85 e frequentemente acima de 0,90. Lula, em 2002, venceu o segundo turno com theta em torno de 0,88; em 2006, aproximou-se de 0,94. Dilma Rousseff, em 2010 e 2014, também operou nessa faixa elevada. Jair Bolsonaro, em 2018, apresentou theta próximo de 0,98 no segundo turno. Em 2022, Lula ultrapassou simbolicamente o valor de 1, o que indica que parte do eleitorado que declarava rejeição acabou votando nele para impedir a reeleição do adversário. Esse é um fenômeno extremo, mas ilustra bem a natureza distinta do segundo turno.

Esses padrões históricos permitem formular regras empíricas bastante robustas. No Brasil contemporâneo, é virtualmente impossível vencer uma eleição presidencial com theta abaixo de 0,70 no primeiro turno ou abaixo de 0,85 no segundo. A rejeição define o tamanho do mercado; o theta define se o candidato consegue ocupar esse mercado de forma suficiente para vencer.

Aplicando essa lente ao cenário de 2026, o diagnóstico se torna particularmente claro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresenta, segundo médias recentes de pesquisas, rejeição em torno de 48%. Isso significa que seu eleitorado disponível gira em torno de 52%. As pesquisas de intenção de voto no primeiro turno o colocam consistentemente entre 38% e 40%. Isso implica um theta aproximado de 0,75 a 0,77 — exatamente no centro da faixa histórica de incumbentes competitivos.

Esse número é revelador. Ele mostra que Lula não sofre de um problema de eficiência eleitoral. Pelo contrário: ele converte uma parcela muito elevada do eleitorado que não o rejeita em voto efetivo. Seu limite atual não é theta, mas rejeição. Com quase metade do eleitorado declarando rejeição, o teto aritmético do primeiro turno fica naturalmente comprimido. Mesmo com theta alto, é matematicamente difícil ultrapassar a casa dos 42% sem uma queda relevante da rejeição ou uma fragmentação extrema da oposição.

Quando se olha para os principais adversários testados nas pesquisas, o contraste é evidente. Governadores e nomes da oposição nacional apresentam rejeições bem mais baixas, mas também thetas muito inferiores, frequentemente abaixo de 0,40 mesmo quando aparecem com mais de 15% de intenção de voto. Isso indica baixa eficiência de conversão, dificuldade de coordenação e ausência de centralidade no sistema político. Em termos simples: há eleitorado disponível, mas ele não se transforma em voto.

A implicação central é que o equilíbrio atual da eleição de 2026 não é paradoxal. Ele é perfeitamente coerente com os padrões históricos observados via theta. Lula lidera o primeiro turno porque tem theta alto; não vence no primeiro turno porque sua rejeição impõe um teto. A oposição não lidera porque, apesar da rejeição menor, não consegue elevar seu theta a patamares competitivos.

No segundo turno, a história tende a mudar, como sempre mudou. Se Lula chegar à disputa final, a experiência histórica sugere que seu theta tenderá a migrar automaticamente para a faixa de 0,88 a 0,95, independentemente do adversário específico, simplesmente porque o sistema se tornará binário. Nesse cenário, a rejeição deixa de ser um obstáculo absoluto e passa a ser apenas um componente do jogo estratégico do voto útil.

Theta, portanto, não é uma curiosidade matemática nem um truque retórico. Ele é uma ferramenta poderosa para entender limites reais, separar ruído de estrutura e evitar tanto o otimismo excessivo quanto o catastrofismo infundado. Em um ambiente político saturado de narrativas, a simplicidade disciplinada do theta talvez seja sua maior virtude.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Estimando a votação do incumbente através do modelo fundamental, pesquisas eleitorias e rejeição (theta)

 A eleição presidencial de 2026 começa a ganhar contornos mais nítidos quando se observa, com algum distanciamento analítico, a interação entre três dimensões fundamentais da política eleitoral brasileira: avaliação de governo, intenção de voto e rejeição. Isoladamente, cada uma dessas métricas diz pouco. Em conjunto, elas permitem construir um retrato bastante robusto do momento eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje o incumbente e, portanto, o eixo em torno do qual o sistema se organiza.

Este artigo apresenta e discute um modelo fundamental de previsão eleitoral, explicitando seus parâmetros, premissas e limites, e compara suas projeções com o grande volume de pesquisas de intenção de voto e rejeição divulgadas entre 2024 e o início de 2026. O objetivo não é prever o resultado final da eleição, mas responder a uma pergunta mais precisa e mensurável: qual é a faixa estruturalmente plausível de votação de Lula no primeiro turno de 2026, dadas as informações hoje disponíveis?

Um modelo estrutural para o primeiro turno

O ponto de partida é um modelo amplamente utilizado na literatura comparada sobre eleições presidenciais: o modelo fundamental. Ele parte do princípio de que o desempenho eleitoral de um incumbente pode ser explicado, em grande medida, por variáveis macroestruturais observáveis antes do início formal da campanha.

No caso brasileiro, o modelo foi especificado da seguinte forma:

[
Voto_{1º turno} = \alpha + \beta_1(\text{Avaliação Líquida}) + \beta_2(\text{PIB}) + \beta_3(-\text{Fadiga}) + \varepsilon
]

A constante α representa o voto estrutural médio de incumbentes, estimado em cerca de 46% no primeiro turno. Esse número não é arbitrário: ele reflete a média histórica observada quando se isolam fatores conjunturais extremos.

Os coeficientes utilizados foram definidos a partir de priors informativos, construídos com base na literatura internacional e calibrados com dados brasileiros desde a redemocratização:

  • β₁ = 0,72: cada ponto percentual adicional na avaliação líquida (aprovação menos reprovação) tende a acrescentar cerca de 0,72 ponto percentual ao voto do incumbente.

  • β₂ = 1,36: cada ponto percentual de crescimento do PIB no ano eleitoral adiciona, em média, 1,36 ponto percentual ao voto.

  • β₃ = 2,07: cada mandato consecutivo do mesmo partido no poder reduz o voto do incumbente em aproximadamente 2,07 pontos percentuais, capturando o efeito da fadiga eleitoral.

Esse modelo não “adivinha” eleições. Ele impõe disciplina estatística à análise, deixando claras as premissas e os mecanismos causais assumidos.

As premissas do cenário analisado

Para aplicar o modelo ao cenário de 2026, foram adotadas premissas explícitas, todas debatidas a partir de dados empíricos recentes:

  • Avaliação líquida do governo Lula: –3 pontos percentuais
    (média consolidada de institutos como Quaest, AtlasIntel, PoderData, Paraná Pesquisas e Meio/Ideia).

  • PIB em 2026: +1,5%
    Um cenário moderadamente otimista, mas compatível com projeções de mercado e organismos internacionais.

  • Fadiga partidária: 2 mandatos consecutivos
    Considerando os governos Lula III (2023–2026) e Dilma Rousseff (2011–2016), descontando a ruptura representada pelo governo Bolsonaro.

Com essas premissas, o modelo produz uma estimativa direta:

[
46,0 - (3 \times 0,72) + (1,5 \times 1,36) - (2 \times 2,07) \approx 41,7%
]

O intervalo de confiança de 95%, considerando o erro histórico do modelo, situa-se aproximadamente entre 38,2% e 45,2%.

O que dizem as pesquisas de intenção de voto

Quando se observa o conjunto amplo de pesquisas realizadas entre dezembro de 2025 e dezembro de 2026 — incluindo Datafolha, Quaest, AtlasIntel, Paraná Pesquisas, Ipec, Futura/Apex, Real Time Big Data e outros — emerge um padrão notavelmente consistente.

Em cenários realistas, com múltiplos candidatos competitivos e níveis moderados de indecisão, Lula aparece quase sempre:

  • acima de 34%, raramente abaixo disso;

  • abaixo de 42%, salvo em listas artificiais com oposição excessivamente fragmentada;

  • com uma mediana em torno de 38,5% a 39%.

Ou seja, as pesquisas empíricas posicionam o presidente exatamente dentro do intervalo previsto pelo modelo, mas mais próximas do seu centro do que do limite superior. O modelo estrutural não erra o sentido nem a ordem de grandeza — mas parece operar perto do teto empírico observado.

A rejeição como teto estrutural

É nesse ponto que entra uma variável que não aparece explicitamente na regressão, mas é crucial para interpretar seus resultados: a rejeição.

A média consolidada das pesquisas de rejeição indica que cerca de 47,8% do eleitorado afirma não votar em Lula de jeito nenhum. Esse número é alto, embora inferior ao de figuras como Jair Bolsonaro ou Ciro Gomes, e muito superior ao observado para governadores como Tarcísio de Freitas, Romeu Zema ou Ronaldo Caiado.

Empiricamente, a rejeição funciona menos como um fator que derruba o voto mínimo e mais como um limitador do voto máximo. Para capturar esse efeito de forma simples, utiliza-se o parâmetro θ (theta).

O que é o theta

Theta é definido como a eficiência de conversão do eleitorado disponível em voto efetivo:

[
\theta = \frac{\text{Voto no 1º turno}}{100 - \text{Rejeição}}
]

Se um candidato tem 48% de rejeição, o “mercado eleitoral” disponível para ele é de 52%. Theta mede quanto desse mercado ele consegue ocupar.

No Brasil, incumbentes competitivos tendem a apresentar valores de θ entre 0,70 e 0,80. Em 2006, Lula chegou a algo próximo de 0,80. Em 2014, Dilma Rousseff ficou em torno de 0,76. Em 2022, Jair Bolsonaro operou perto de 0,78.

Neste exercício, foi adotado θ = 0,75, um valor deliberadamente conservador.

Aplicando ao caso atual:

[
(100 - 47,8) \times 0,75 \approx 39,2%
]

O resultado coincide quase exatamente com o centro de massa das pesquisas de intenção de voto.

Comparando modelo, pesquisas e rejeição

O quadro que emerge é coerente:

  • O modelo fundamental, dadas as premissas, aponta para algo em torno de 41–42%.

  • As pesquisas, em cenários realistas, concentram-se entre 38% e 40%.

  • A rejeição, via theta, impõe um teto prático próximo de 40–42%.

Isso não significa que o modelo esteja “errado”. Significa que ele precisa ser disciplinado por restrições empíricas, e a rejeição é a mais importante delas no contexto atual.

O diagnóstico final

A convergência entre modelo estrutural, pesquisas de intenção de voto e dados de rejeição permite uma conclusão clara e pouco espetacular — e exatamente por isso, robusta.

Lula entra no ciclo eleitoral de 2026 como líder provável do primeiro turno, com um piso elevado, fruto da força do incumbente e da fragmentação da oposição. Ao mesmo tempo, carrega uma rejeição alta o suficiente para tornar extremamente improvável uma vitória em primeiro turno.

O intervalo mais plausível para sua votação, à luz dos dados atuais, situa-se entre 38% e 41%, com viés ligeiramente abaixo do ponto estimado pelo modelo estrutural puro. Para romper esse teto, seria necessário reduzir rejeição, assistir a uma fragmentação ainda maior da oposição ou experimentar um choque econômico positivo amplamente percebido pelo eleitorado.

Nada disso é impossível. Mas, do ponto de vista analítico, o sistema hoje parece estável. E, em eleições, estabilidade estrutural costuma ser a informação mais valiosa de todas.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Ratinho tem maiores chances que Flávio contra Lula, mas Lula segue favorito

 A disputa hipotética de segundo turno entre Lula e Ratinho Junior tem sido frequentemente interpretada à luz de um argumento intuitivo, porém incompleto: o de que a menor rejeição de Ratinho e a distribuição assimétrica de indecisos e abstencionistas tenderiam, quase automaticamente, a inverter o favoritismo hoje observado nas pesquisas. A análise empírica sistemática dos dados disponíveis ao longo de 2025, contudo, sugere um quadro mais complexo. Mesmo quando se incorporam hipóteses desfavoráveis a Lula — tanto no comportamento dos indecisos quanto no comparecimento eleitoral — o ex-presidente permanece como favorito no agregado, ainda que esse favoritismo não seja absoluto nem imune a mudanças de tendência.

O ponto de partida da análise é um conjunto amplo de pesquisas nacionais de segundo turno realizadas por diferentes institutos ao longo de 2025. Essas pesquisas apresentam variações metodológicas relevantes, sobretudo na forma como definem e mensuram a categoria residual frequentemente rotulada como “indecisos e ausentes”. Em alguns institutos, essa categoria inclui apenas eleitores que não declararam voto; em outros, agrega também respostas de “não vai votar”, votos brancos e nulos, ou mesmo projeções implícitas de abstenção. O resultado é uma variabilidade significativa dessa coluna, que oscila aproximadamente entre 12% e 29% do eleitorado, dificultando comparações diretas e interpretações simplistas.

Para lidar com esse problema, a análise adotou uma decomposição aproximada e conservadora dessa categoria residual em três componentes conceitualmente distintos: abstenção (A), votos brancos ou nulos (B) e indecisão genuína (U). Essa decomposição foi ancorada em dados observados em eleições presidenciais recentes, nas quais a abstenção efetiva no segundo turno tem se situado em torno de 20% a 21% do eleitorado, enquanto votos brancos e nulos correspondem a algo próximo de 4% do eleitorado quando convertidos a partir do percentual de votos válidos. Assim, assumiu-se um bloco “estrutural” de não contribuição ao resultado — cerca de 21% do eleitorado — composto majoritariamente por abstenção e votos inválidos, e tratou-se como indecisão real apenas o excedente acima desse patamar quando a categoria residual ultrapassa esse valor.

Essa distinção é crucial. Quando uma pesquisa aponta, por exemplo, 14% ou 15% de “indecisos e ausentes”, a interpretação mais plausível é que quase toda essa parcela corresponde a eleitores que não comparecerão ou não produzirão votos válidos, e não a um reservatório de votos latentes prontos para migrar de forma decisiva para um dos candidatos. Apenas quando essa categoria supera algo como 21% é que surge um contingente relevante de indecisos reais passível de redistribuição entre Lula e Ratinho.

Com base nessa decomposição, foi construído um modelo probabilístico exploratório que combina três elementos: a média agregada das intenções de voto observadas em 2025, a incerteza decorrente da heterogeneidade entre institutos e a redistribuição assimétrica dos indecisos remanescentes, além de um ajuste adicional para turnout diferencial, isto é, a hipótese de que a base potencial de Lula compareça menos às urnas do que a de Ratinho. Essa última hipótese foi incorporada explicitamente para refletir o argumento recorrente de que abstenções mais altas tendem a penalizar candidaturas associadas a eleitores de menor renda e menor escolaridade.

Os resultados numéricos das simulações são elucidativos. Em um cenário considerado relativamente neutro, no qual os poucos indecisos reais se distribuem de forma proporcional ao padrão já observado entre os eleitores decididos, a probabilidade estimada de vitória de Lula no voto válido situa-se em torno de 83%, assumindo comparecimento simétrico entre as bases. Mesmo quando se introduz um diferencial de comparecimento de dois pontos percentuais contra Lula, essa probabilidade recua para cerca de 79%, e com um diferencial de quatro pontos percentuais, permanece próxima de 74%. Trata-se de uma redução não desprezível, mas insuficiente para inverter o favoritismo.

Em cenários mais agressivos para Lula, nos quais se supõe que 60% dos indecisos reais migrem para Ratinho e apenas 40% para Lula, a probabilidade de vitória de Lula cai, mas continua majoritária. Nessas condições, a chance de vitória do ex-presidente fica em torno de 80% com comparecimento simétrico, aproximadamente 76% com um diferencial de dois pontos percentuais contra ele e cerca de 72% com um diferencial de quatro pontos. Mesmo sob hipóteses ainda mais extremas, em que 65% dos indecisos reais se alinham a Ratinho, Lula mantém probabilidades próximas de 79%, 75% e 71%, respectivamente, nos mesmos três níveis de turnout diferencial.

Esses números ajudam a esclarecer um ponto central do debate: a assimetria de indecisos e abstenções, embora real e potencialmente relevante, não tem massa suficiente, nos dados atuais, para anular a vantagem média de Lula. Em grande parte das pesquisas, especialmente naquelas com categorias residuais mais baixas, simplesmente não há indecisos reais em quantidade suficiente para produzir uma reversão expressiva do resultado. O que existe, em muitos casos, é abstenção projetada ou implícita, que reduz o total de votos válidos, mas não redistribui preferências de forma a beneficiar automaticamente o candidato que está atrás.

Isso não significa que o favoritismo de Lula seja incondicional ou que a eleição esteja decidida. O próprio exercício mostra que o favoritismo diminui de forma sistemática à medida que se impõem hipóteses mais desfavoráveis, sobretudo no que diz respeito ao comparecimento eleitoral. Além disso, o modelo parte da premissa de que as médias observadas ao longo de 2025 são um retrato razoável do equilíbrio atual da disputa. Caso surja uma tendência clara e persistente de convergência — com Ratinho encostando ou ultrapassando Lula em uma sequência consistente de levantamentos recentes — o centro de gravidade dessas simulações mudaria.

O que os resultados indicam, portanto, é algo mais sutil do que a narrativa de uma virada iminente baseada apenas em rejeição menor ou em indecisos supostamente pró-Ratinho. A rejeição mais baixa funciona como um indicador de teto potencial e de elasticidade futura, não como garantia automática de conversão eleitoral. Para que esse potencial se materialize, seria necessário observar, empiricamente, uma redução consistente da distância nas intenções de voto ou um aumento generalizado da indecisão real captada pelos institutos, e não apenas variações pontuais associadas a metodologias específicas.

Em síntese, mesmo assumindo explicitamente que as distribuições assimétricas de indecisos e abstenções penalizam Lula, a evidência agregada disponível em 2025 aponta para um cenário em que ele segue como favorito no segundo turno contra Ratinho. Esse favoritismo, contudo, não é absoluto nem confortável: ele se apoia mais em um piso eleitoral relativamente sólido do que em um teto elevado, e pode ser corroído por mudanças no ambiente político, econômico ou na dinâmica da campanha. A principal conclusão é que a eleição, se ocorrer nesses termos, tende a ser decidida menos por potenciais abstratos e mais por movimentos concretos e observáveis nas intenções de voto e no comparecimento efetivo, especialmente na reta final.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Quem tem melhores condições de enfrentar Lula: Flavio ou Ratinho?

 Com Lula mantendo liderança sólida, a verdadeira batalha eleitoral se desloca para o campo oposicionista: quem, afinal, tem mais condições reais de enfrentá-lo no segundo turno? Embora Flávio Bolsonaro apareça à frente de Ratinho Junior nas intenções de voto atuais, uma análise cuidadosa que leve em conta rejeição, teto eleitoral, redistribuição de votos e precedentes históricos aponta para uma conclusão distinta: Ratinho Jr. reúne hoje condições estruturais superiores às de Flávio para chegar ao segundo turno.

O primeiro equívoco recorrente na análise eleitoral é tratar intenção de voto como destino. Pesquisas capturam uma fotografia do momento, não o filme completo da eleição. Em cenários com três candidaturas relevantes, como tende a ser 2026, o segundo turno raramente é definido apenas pela força inicial de cada candidato. Ele depende, sobretudo, da capacidade de crescimento ao longo da campanha, da possibilidade de absorver eleitores de candidaturas menores e, principalmente, do grau de rejeição que cada nome enfrenta. É nesse ponto que a vantagem aparente de Flávio começa a se dissipar.

Os dados médios de rejeição das principais pesquisas nacionais realizadas entre 2024 e 2025 revelam um contraste nítido. Lula apresenta rejeição em torno de 48%, um patamar elevado, mas compatível com sua liderança consolidada e com o histórico de polarização que o acompanha. Flávio Bolsonaro surge logo atrás, com cerca de 44% de rejeição, um número extremamente alto para alguém que precisa crescer para alcançar o segundo turno. Ratinho Jr., por sua vez, aparece com rejeição próxima de 29%, um patamar significativamente mais baixo e comparável ao de outros nomes da direita moderada, como Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Essa diferença não é marginal: ela define o teto eleitoral de cada candidatura.

Rejeição elevada funciona como um bloqueio matemático. Um candidato rejeitado por mais de 40% do eleitorado encontra enorme dificuldade para ultrapassar certos patamares de voto, porque simplesmente não é considerado opção por uma parcela muito ampla da sociedade. Flávio carrega esse fardo de forma clara. Mesmo partindo de um percentual de intenção de voto maior, ele enfrenta resistência tanto entre eleitores de centro quanto entre setores da direita que rejeitam o bolsonarismo. Ratinho, ao contrário, começa menor, mas encontra menos portas fechadas. Seu espaço potencial de crescimento, medido justamente pela diferença entre 100% e sua rejeição, é muito maior.

Esse cenário se agrava para Flávio quando se considera a natureza do bolsonarismo sem Jair Bolsonaro como candidato. Em 2018 e 2022, Jair Bolsonaro não era apenas um nome competitivo; ele era um polo político completo, com identidade própria, forte mobilização emocional e capacidade de estruturar a eleição em torno de si. Flávio herda o sobrenome, mas não herda integralmente esse papel. As pesquisas mostram algo revelador: ele absorve grande parte da rejeição associada ao bolsonarismo, mas não reproduz, na mesma proporção, a intensidade de apoio. O sobrenome transfere rejeição com mais facilidade do que transfere votos.

À medida que a campanha avança, outro elemento decisivo entra em cena: a redistribuição dos votos dos candidatos que ficam pelo caminho. Eleitores não desaparecem quando seus candidatos perdem viabilidade; eles migram, e essa migração segue padrões bastante estáveis no Brasil. Eleitores de esquerda e centro-esquerda tendem a se concentrar em Lula, reforçando sua posição. Já os eleitores da direita moderada — aqueles que hoje se identificam com nomes como Zema ou Caiado — rejeitam Lula, mas também demonstram resistência ao bolsonarismo. Para esse segmento, Ratinho surge como uma alternativa aceitável, enquanto Flávio aparece como continuação de um conflito político que muitos desejam encerrar.

O eleitor bolsonarista mais ideológico, por sua vez, migra quase integralmente para Flávio. O problema é que esse contingente, embora barulhento e politicamente ativo, não é majoritário no eleitorado brasileiro e já se encontra, em grande medida, consolidado. Isso significa que Flávio cresce pouco quando os demais candidatos saem de cena, enquanto Ratinho tende a absorver fatias sucessivas da direita pragmática e do centro antipetista, justamente por não despertar rejeição intensa nesses grupos.

A história eleitoral brasileira reforça essa leitura. Em Eleição presidencial brasileira de 2006, Lula enfrentava rejeição significativa, mas tinha base sólida. O segundo turno não foi ocupado por um candidato radical, e sim por Geraldo Alckmin, representante de uma centro-direita com rejeição moderada e capacidade de agregação. Já Eleição presidencial brasileira de 2018 foi uma exceção histórica, marcada por polarização simétrica extrema, na qual Jair Bolsonaro era ele próprio o polo dominante da direita. Em Eleição presidencial brasileira de 2022, essa polarização se manteve, impedindo que uma alternativa de centro, como Simone Tebet, herdasse votos suficientes para romper o duelo entre Lula e Bolsonaro.

O contexto de 2026 é diferente. Bolsonaro não é candidato, e a direita se fragmenta entre um campo radical enfraquecido e um campo pragmático em busca de viabilidade. Nesse ambiente, a eleição se assemelha muito mais a 2006 do que a 2018 ou 2022. Ratinho ocupa o espaço do candidato menos rejeitado, capaz de somar apoios diversos, enquanto Flávio se aproxima mais do perfil de uma candidatura com base fiel, porém limitada por rejeição elevada.

O paradoxo que emerge dos números é claro: Flávio Bolsonaro tem mais votos agora, mas Ratinho Jr. tem mais eleitores possíveis adiante. Segundo turno não é decidido pela intensidade da base inicial, mas pela capacidade de expansão. Com rejeição inferior a 30%, Ratinho dispõe de margem para crescer dez, quinze ou até vinte pontos ao longo da campanha. Flávio, com rejeição acima de 40%, encontra um teto muito mais baixo e difícil de romper.

À luz dos dados das pesquisas, da lógica de redistribuição do eleitorado e das lições oferecidas pelas eleições anteriores, a conclusão se impõe de forma quase inevitável. Ratinho Jr. reúne hoje condições objetivamente superiores às de Flávio Bolsonaro para chegar ao segundo turno contra Lula. Isso não significa que o resultado esteja definido ou que Flávio esteja fora do jogo, mas indica que, na matemática fria da viabilidade eleitoral, a moderação e a baixa rejeição oferecem um caminho mais sólido do que a simples herança de um sobrenome polarizador. Em eleições presidenciais no Brasil, vence quem consegue ser rejeitado por menos gente — e, neste momento, esse é claramente o caso de Ratinho Jr.