terça-feira, 3 de março de 2026

A dinâmica invisível: como a queda dos indecisos ajuda a explicar o avanço de Flávio

 As pesquisas mais recentes mostram dois movimentos simultâneos na corrida presidencial: a redução consistente do percentual de indecisos e o crescimento de Flávio Bolsonaro. À primeira vista, a associação parece intuitiva: à medida que o eleitor decide, alguém precisa absorver esses votos.




Mas a pergunta central não é se isso acontece. É como acontece.

Os dados permitem ir além da fotografia das pesquisas e entrar na mecânica da dinâmica eleitoral. Ao aplicar modelos vetoriais autorregressivos (VAR), que capturam a interação temporal entre as séries, é possível observar não apenas correlação, mas precedência dinâmica: se mudanças nos indecisos ajudam a prever movimentos futuros dos candidatos.

E os resultados revelam algo mais sofisticado do que uma simples redistribuição.

O método: por que usar VAR?

Modelos tradicionais de regressão mostram relações contemporâneas — isto é, como variáveis se movem juntas no mesmo momento. Foi o que indicou, inicialmente, que tanto Lula quanto Flávio tendem a crescer quando os indecisos diminuem.

Mas eleições não se movem instantaneamente. Eleitores não decidem todos no mesmo dia. Parte do movimento é gradual.

O modelo VAR permite capturar exatamente isso: como variações passadas em uma variável influenciam as demais ao longo dos períodos seguintes. Em termos práticos, ele responde à pergunta:

Quando os indecisos caem hoje, quem tende a crescer amanhã?

A seleção automática de defasagens — via critérios AIC, BIC, HQIC e FPE — apontou como especificação ótima um VAR com quatro defasagens (VAR(4)). Para fins de robustez, também foi estimado um VAR(2), modelo mais parcimonioso.

Teste de Granger: quem antecipa quem?

O teste de causalidade de Granger não estabelece causalidade estrutural, mas identifica precedência temporal estatisticamente significativa.

No modelo VAR(2):

  • A queda dos indecisos antecede crescimento de Flávio (p = 0,0016).

  • A queda dos indecisos também antecede crescimento de Lula (p = 0,0052).

Ou seja, ambos absorvem indecisos quando o movimento é analisado com duas defasagens.

Mas no modelo com defasagem ótima, VAR(4), o padrão se torna mais assimétrico:

  • Indecisos → Flávio: altamente significativo (p = 0,0011).

  • Indecisos → Lula: perde significância estatística (p = 0,0877).

O efeito dinâmico permanece robusto para Flávio, mas se torna menos consistente para Lula quando a dinâmica de médio prazo é incorporada.

Isso sugere que parte da redistribuição pró-Lula ocorre de forma mais imediata, enquanto o avanço de Flávio apresenta maior persistência ao longo dos períodos.

Função Impulso–Resposta: o que acontece após um choque?

Para tornar a dinâmica mais concreta, foi estimada a função impulso–resposta (IRF), simulando o efeito de um choque de 1 ponto percentual nos indecisos.

Como o interesse real é na queda dos indecisos, basta inverter o sinal dos resultados.

No VAR(2), um choque equivalente a -1 p.p. em indecisos implica:

Flávio

  • Aproximadamente +0,44 p.p. no período seguinte.

  • Cerca de +1,14 p.p. acumulados nos três primeiros períodos.

Lula

  • Cerca de +0,34 p.p. no primeiro período.

  • Efeito acumulado pequeno e menos persistente ao longo dos períodos seguintes.

A diferença crucial não está apenas na magnitude inicial, mas na persistência. O avanço de Flávio tende a se sustentar ao longo dos períodos seguintes. Em Lula, parte do efeito se dissipa.

Crescimento estrutural versus redistribuição

Outro elemento central é que Flávio apresenta componente autônomo de crescimento ao longo do tempo — identificado nas regressões múltiplas com controle temporal.

Isso significa que:

  • Parte do crescimento de Flávio decorre da absorção de indecisos.

  • Parte decorre de tendência própria independente.

Lula, por sua vez, apresenta crescimento mais associado à redistribuição, com menor evidência de impulso autônomo recente.

Em termos simplificados:

Flávio cresce por dois canais.
Lula cresce principalmente por um.

O cenário com indecisos em 5%

Se o percentual atual de indecisos (em torno de 10%) cair para 5%, a dinâmica estimada sugere:

  • Ambos os polos crescerão.

  • A magnitude dependerá do ritmo da queda.

  • O efeito acumulado tende a favorecer Flávio em termos de persistência.

Isso não implica automaticamente mudança de liderança. Mas implica compressão de margem.

Conclusão: polarização em consolidação

Os dados indicam que a redução dos indecisos não é neutra. Ela alimenta os polos competitivos.

A diferença está na dinâmica.

Flávio apresenta:

  • Crescimento estrutural próprio.

  • Absorção dinâmica persistente de indecisos.

Lula apresenta:

  • Forte elasticidade contemporânea.

  • Menor persistência dinâmica no modelo ampliado.

O que isso sugere é menos uma virada e mais um processo de consolidação. À medida que a incerteza diminui, o sistema tende a se organizar em torno das candidaturas percebidas como competitivas. A eleição ainda está aberta. Mas a dinâmica recente indica que a queda dos indecisos pode não apenas reduzir a margem — pode também alterar a velocidade da disputa. E em campanhas eleitorais, velocidade importa tanto quanto posição.

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