terça-feira, 10 de março de 2026

Pode Ratinho Jr. chegar ao segundo turno? Uma análise probabilística da corrida presidencial

 A possibilidade de Ratinho Jr. substituir Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial tem aparecido com frequência crescente no debate político. A hipótese surge principalmente porque a campanha eleitoral ainda não começou oficialmente — e a história das eleições brasileiras mostra que movimentos importantes nas intenções de voto costumam ocorrer justamente durante o período de propaganda eleitoral, debates e mobilização partidária. A pergunta central, portanto, é simples: dadas as pesquisas disponíveis hoje, quão provável é que Ratinho consiga ultrapassar Flávio e chegar ao segundo turno até outubro?

Para responder a essa questão de forma rigorosa, foi realizada uma análise estatística baseada na agregação bayesiana de pesquisas eleitorais realizadas entre março de 2025 e março de 2026. O objetivo foi estimar, primeiro, o estado atual da corrida presidencial e, em seguida, calcular a probabilidade de Ratinho ultrapassar Flávio Bolsonaro ao longo dos próximos meses. O resultado geral indica que essa possibilidade existe, mas é estatisticamente pequena no cenário atual.

A análise utilizou dezenas de pesquisas conduzidas por institutos como Datafolha, AtlasIntel, Genial/Quaest, Paraná Pesquisas, Futura, Ideia Big Data, Real Time Big Data e Gerp. Muitos desses levantamentos apresentam múltiplos cenários com combinações diferentes de candidatos. Para evitar que uma mesma amostra influencie o agregado várias vezes, foi aplicada uma regra estatística simples: quando uma pesquisa apresenta vários cenários baseados na mesma coleta de dados, o peso total dessa pesquisa é dividido entre os cenários apresentados. Esse procedimento impede que um único levantamento tenha influência excessiva no resultado final.

Cada pesquisa foi ponderada com base em três fatores principais. O primeiro é a precisão estatística. Pesquisas com margens de erro menores — geralmente associadas a amostras maiores — recebem maior peso. A variância aproximada de cada levantamento foi estimada dividindo a margem de erro por 1,96, o que corresponde ao desvio padrão implícito de um intervalo de confiança de 95%. O peso associado à precisão é proporcional ao inverso da variância: quanto menor a incerteza da pesquisa, maior seu peso no agregado.

O segundo fator é a recência. Pesquisas mais antigas tendem a refletir menos o estado atual da opinião pública. Por isso, cada levantamento recebe um peso temporal baseado em um decaimento exponencial. Nesse modelo, a influência de uma pesquisa diminui gradualmente à medida que o tempo passa. A meia-vida informacional adotada foi de quinze dias, valor típico em agregadores eleitorais. Isso significa que pesquisas realizadas há mais de um mês ainda têm influência, mas significativamente menor do que levantamentos mais recentes.

O terceiro fator é a qualidade histórica dos institutos de pesquisa. O modelo utiliza um índice de desempenho baseado no erro médio observado em eleições anteriores. Institutos que historicamente apresentaram maior precisão recebem um peso adicional, enquanto aqueles com histórico mais irregular têm influência ligeiramente reduzida. O peso final de cada observação resulta da multiplicação desses três fatores: precisão, recência e qualidade histórica.

Com essa metodologia, foi possível estimar uma média posterior bayesiana das intenções de voto no primeiro turno. O retrato que emerge das pesquisas mais recentes é relativamente estável. Lula aparece liderando a disputa com aproximadamente 40,8% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro ocupa o segundo lugar com cerca de 33,5%. Ratinho Jr. surge em terceiro lugar, com aproximadamente 8,7%. Outros nomes aparecem com porcentagens menores: Tarcísio de Freitas em torno de 6,4%, Romeu Zema com cerca de 4,5% e Ronaldo Caiado próximo de 4,1%. Os demais candidatos aparecem com níveis residuais de apoio.

A distância entre o segundo e o terceiro colocados é um dos elementos mais importantes dessa análise. Atualmente, Flávio Bolsonaro possui uma vantagem média de aproximadamente 24,8 pontos percentuais sobre Ratinho Jr. Em termos eleitorais, trata-se de uma diferença muito grande. Mesmo considerando a incerteza estatística das pesquisas, os intervalos de confiança dos dois candidatos quase não se sobrepõem. Isso sugere que o segundo lugar de Flávio está relativamente consolidado no momento.

Além do nível atual de apoio, o modelo também estima a evolução das intenções de voto ao longo do tempo. Nos últimos meses, a tendência média mensal indica um crescimento moderado de Flávio Bolsonaro, de cerca de 1,2 ponto percentual por mês. Ratinho Jr. também apresenta crescimento, mas em ritmo muito menor — aproximadamente 0,3 ponto percentual por mês. Lula, por sua vez, registra uma leve queda média de cerca de meio ponto por mês. Essas tendências indicam que, embora Ratinho tenha ganhado algum espaço ao longo do último ano, a diferença em relação ao segundo colocado não está diminuindo rapidamente.

Para avaliar o que pode acontecer até a eleição, foi utilizada simulação Monte Carlo, um método amplamente empregado em modelagem eleitoral. A técnica consiste em gerar milhares de trajetórias possíveis para a evolução das intenções de voto, incorporando tanto a tendência recente quanto a incerteza estatística das pesquisas. O modelo também considera a volatilidade histórica observada em eleições presidenciais brasileiras. Essa volatilidade foi estimada em aproximadamente três pontos percentuais por mês, valor compatível com o comportamento das séries eleitorais nas últimas décadas.

No total, foram simuladas duzentas mil trajetórias eleitorais possíveis entre março e outubro de 2026. Em cada uma dessas simulações, observou-se se Ratinho Jr. ultrapassaria Flávio Bolsonaro no primeiro turno. O resultado foi claro: em cerca de 2,3% das simulações, Ratinho conseguia assumir o segundo lugar até a eleição. Em outras palavras, a probabilidade estimada de Ratinho substituir Flávio no segundo turno é de aproximadamente dois por cento.

A simulação também permite estimar a distribuição provável das posições finais. Em cerca de 91% dos cenários simulados, Lula termina o primeiro turno em primeiro lugar. Flávio Bolsonaro aparece em segundo lugar em aproximadamente 88% das simulações. Ratinho Jr. termina em terceiro lugar na grande maioria dos cenários — cerca de 86%. Apenas em uma pequena fração das simulações ele consegue ultrapassar Flávio e alcançar o segundo turno.

É importante lembrar que a campanha eleitoral oficial ainda não começou. Historicamente, o período de propaganda eleitoral gratuita, debates televisivos e mobilização partidária pode provocar mudanças significativas nas intenções de voto. Estudos sobre eleições brasileiras indicam que candidatos podem ganhar entre cinco e quinze pontos percentuais durante a campanha. Além disso, o número de indecisos costuma cair rapidamente quando a eleição se aproxima.

A história política brasileira oferece alguns exemplos de mudanças relevantes durante a campanha. Em 1989, Lula ultrapassou Leonel Brizola na reta final e chegou ao segundo turno contra Fernando Collor. Em 2014, Aécio Neves ultrapassou Marina Silva durante a campanha e terminou o primeiro turno em segundo lugar. Esses episódios mostram que viradas são possíveis. No entanto, elas geralmente envolvem movimentos de dez a quinze pontos percentuais — não diferenças próximas de vinte e cinco pontos, como a observada atualmente entre Flávio e Ratinho.

Para que Ratinho Jr. chegasse ao segundo turno no cenário atual, seria necessário um deslocamento eleitoral muito grande. Movimentos dessa magnitude na história política brasileira geralmente ocorrem apenas quando há eventos disruptivos: a retirada de um candidato competitivo, um grande escândalo político, mudanças bruscas na conjuntura econômica ou realinhamentos partidários significativos. Sem um choque desse tipo, a dinâmica das pesquisas tende a ser gradual.

Isso não significa que a eleição esteja decidida. O início da campanha oficial ainda pode alterar o equilíbrio da disputa, especialmente se debates, alianças ou eventos políticos mudarem a percepção do eleitorado. No entanto, os dados disponíveis até agora indicam que a corrida pelo segundo turno permanece dominada por Flávio Bolsonaro. Ratinho Jr. aparece como um candidato relevante no campo intermediário da disputa, mas ainda distante do patamar necessário para competir diretamente pela segunda vaga.

Em termos probabilísticos, a análise sugere que a chance de Ratinho chegar ao segundo turno no lugar de Flávio é pequena, embora não inexistente. No cenário atual das pesquisas, essa probabilidade gira em torno de dois por cento. Isso significa que, a menos que a dinâmica política se transforme significativamente nos próximos meses, o cenário mais provável continua sendo um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.

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