terça-feira, 16 de junho de 2026

O teste de viabilidade de Caiado: voto estratégico, queda de Flávio e a disputa pela vaga contra Lula

 A eleição presidencial de 2026 ainda está longe de produzir um quadro fechado, mas as pesquisas de primeiro turno já permitem observar um movimento politicamente relevante dentro do campo oposicionista. Nos cenários em que Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos aparecem simultaneamente, o agregado recente sugere uma combinação de três tendências: Lula permanece na liderança, Flávio Bolsonaro segue como principal adversário potencial, mas em trajetória descendente, e Caiado começa a aparecer como nome em crescimento, embora ainda distante do patamar necessário para ser percebido como alternativa viável de segundo turno.

A questão central não é apenas saber quanto Caiado tem hoje. É saber quando o eleitor passa a tratá-lo como opção real. Em eleições majoritárias, especialmente quando há um líder claro, intenção de voto não é apenas preferência. Ela também carrega cálculo estratégico. Muitos eleitores não escolhem apenas quem preferem; escolhem quem acreditam que pode chegar ao segundo turno. É aí que entra o voto estratégico.

Nos dados analisados, o agregado bayesiano dos cenários comparáveis coloca Lula com 41,5%, Flávio Bolsonaro com 34,3%, Ronaldo Caiado com 4,2%, Romeu Zema com 4,1% e Renan Santos com 3,2%. Esses números indicam uma eleição ainda organizada em torno de dois polos principais: Lula, na liderança, e Flávio, como adversário mais competitivo. Caiado aparece em terceiro, mas praticamente empatado com Zema e ainda muito abaixo do bloco principal.

A tendência recente, no entanto, é mais interessante do que a fotografia estática. Comparando a metade inicial e a metade final da janela analisada, Flávio cai de 35,7% para 32,8%, uma perda de aproximadamente 2,9 pontos percentuais. Caiado sobe de 3,3% para 5,2%, um ganho de cerca de 1,9 ponto. Zema também cresce, de 3,9% para 4,4%, enquanto Lula oscila de 42,2% para 40,8%. A leitura política é clara: há perda de densidade de Flávio e algum ganho dos nomes alternativos da direita, especialmente Caiado.

Por instituto, o movimento também aparece. Na Apex/Futura, Flávio recua de 36,1% para 33,5%, enquanto Caiado sobe de 4,4% para 6,5%. Na AtlasIntel, Flávio cai de 39,5% para 34,3%, embora Caiado recue levemente de 3,2% para 2,7%. Na Datafolha, Flávio cai de 35% para 31%, e Caiado sobe de 3% para 4%. Ou seja, a queda de Flávio é mais consistente do que a alta de Caiado. O avanço de Caiado existe no agregado, mas ainda não é uniforme entre institutos.

O ponto decisivo é que, para o eleitor estratégico, não basta Caiado crescer. Ele precisa parecer capaz de superar Flávio ou, ao menos, de disputar com ele a condição de principal adversário de Lula. Hoje, pelo agregado, Caiado tem apenas 12,3% do tamanho eleitoral de Flávio: seus 4,2% equivalem a pouco mais de um oitavo dos 34,3% de Flávio. Em relação a Lula, Caiado tem uma viabilidade relativa de apenas 0,10, isto é, seus votos equivalem a cerca de 10% da votação do líder. Flávio, por sua vez, tem viabilidade relativa de 0,83 em relação a Lula. Essa diferença é enorme.

Para formalizar essa intuição, usei um modelo QRE estratégico. O QRE, ou Equilíbrio Quantal de Resposta, parte da ideia de que eleitores não escolhem de forma perfeitamente determinística. Eles respondem probabilisticamente às utilidades percebidas dos candidatos. Neste caso, a utilidade eleitoral foi simplificada em dois componentes: saliência eleitoral, aproximada pelo agregado de intenção de voto, e viabilidade estratégica, medida pela proximidade do candidato em relação ao líder.

A função usada foi:

[
U_i = 0{,}595 \cdot \frac{V_i}{100} + 0{,}50 \cdot W_i
]

em que (V_i) é o agregado bayesiano do candidato e (W_i) é sua viabilidade relativa:

[
W_i = \frac{V_i}{V_{líder}}
]

Como Lula lidera com 41,5%, o termo (W) fica assim: Lula 1,00, Flávio 0,83, Caiado 0,10, Zema 0,10 e Renan 0,08. A partir disso, o modelo calcula probabilidades QRE usando:

[
P_i = \frac{e^{\tau U_i}}{\sum e^{\tau U_j}}
]

O parâmetro (\tau) mede o grau de concentração estratégica do eleitorado. Com (\tau = 3), o ambiente é mais disperso; com (\tau = 5), há duopólio; com (\tau = 8), o sistema fica fortemente polarizado.

No cenário atual, com (\tau = 3), o QRE produz aproximadamente: Lula 48,3%, Flávio 32,7%, Caiado 6,5%, Zema 6,4% e Renan 6,1%. Com (\tau = 5), a concentração aumenta: Lula vai a 61,6%, Flávio a 32,1%, e Caiado cai para 2,2%. Com (\tau = 8), o modelo praticamente elimina os candidatos menores: Lula fica com 73,2%, Flávio com 25,8%, e Caiado com apenas 0,3% de probabilidade estratégica.

Isso mostra uma conclusão importante: quanto mais estratégico e polarizado for o eleitorado, mais difícil fica para Caiado crescer apenas por preferência. Em um ambiente altamente polarizado, o eleitor tende a migrar para quem já parece competitivo. Hoje, esse nome ainda é Flávio.

Então, o que precisaria acontecer para Caiado ser percebido como opção viável? O primeiro limiar é chegar a algo entre 10% e 12% no agregado bayesiano. Partindo dos atuais 4,2%, Caiado precisaria ganhar entre 5,8 e 7,8 pontos percentuais. Se esse crescimento viesse principalmente de Flávio, Flávio cairia dos atuais 34,3% para algo entre 28,5% e 26,5%.

No cenário mínimo de viabilidade, Caiado teria 10% e Flávio cairia para 28,5%. Lula permaneceria em 41,5%. Nesse caso, o (W) de Caiado subiria de 0,10 para 0,24. Isso ainda não o colocaria perto de Flávio, mas já o tiraria da zona de irrelevância estratégica. Com (\tau = 3), o QRE daria Lula com 51,6%, Flávio com 25,6%, Caiado com 9,4%, Zema com 6,9% e Renan com 6,5%. Ou seja: Caiado passaria a ser visto como opção viável em ambiente de baixa ou média polarização.

Num cenário mais robusto, Caiado chegaria a 12% e Flávio cairia para 26,5%. O (W) de Caiado subiria para 0,29. Com (\tau = 3), Caiado alcançaria 10,7% no QRE. Com (\tau = 5), chegaria a 5,0%, cruzando o limiar mínimo de viabilidade mesmo em ambiente mais competitivo. Esse é o ponto em que a candidatura deixaria de ser apenas alternativa programática e passaria a ser percebida como uma possibilidade estratégica.

A implicação política é direta. Para Caiado ser visto como alternativa real a Flávio na disputa pela vaga contra Lula, não basta crescer um ou dois pontos. Ele precisa romper a barreira psicológica dos dois dígitos. A zona crítica começa em 10% e se consolida em 12%. Abaixo disso, seu crescimento pode incomodar Flávio, mas não necessariamente deslocá-lo. Acima disso, o eleitorado começa a recalcular.

O problema para Flávio é que a tendência recente já aponta erosão. No agregado suavizado, ele perdeu cerca de 2,9 pontos dentro da janela analisada. O problema para Caiado é que seu ganho, embora positivo, ainda é insuficiente: subiu cerca de 1,9 ponto. Se essa dinâmica continuasse linearmente, Caiado ainda precisaria de mais algumas rodadas favoráveis para entrar na zona de viabilidade. O ponto de virada não está no crescimento isolado de Caiado, mas na combinação entre crescimento dele e queda adicional de Flávio.

Em termos eleitorais, o cenário de virada começaria mais ou menos assim: Lula na faixa de 41% a 42%, Flávio caindo para 28% a 29%, e Caiado chegando a 10%. O cenário mais ameaçador para Flávio seria Lula ainda perto de 41%, Flávio em torno de 26% a 27%, e Caiado em 12%. Nesse segundo caso, Caiado ainda não estaria tecnicamente empatado com Flávio, mas já teria massa crítica suficiente para disputar a narrativa de voto útil dentro da direita.

A conclusão é que Caiado ainda não é, hoje, uma alternativa plenamente viável a Flávio Bolsonaro para disputar o segundo turno contra Lula. Mas os dados mostram o tipo de movimento que poderia torná-lo viável. Ele precisa transformar crescimento marginal em salto estratégico. Para isso, precisa sair da faixa de 4% a 5% e chegar aos 10% a 12%, enquanto Flávio precisaria cair para algo entre 26% e 29%. A partir daí, o eleitor de oposição passaria a enfrentar uma pergunta nova: Flávio continua sendo o único caminho competitivo contra Lula, ou Caiado virou uma opção real?

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