sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O mapa piso–teto e por que a olhar para a rejeição é importante no Brasil

O mapa piso–teto: por que a rejeição passou a decidir eleições no Brasil

Por muitos anos, a leitura dominante das eleições brasileiras se apoiou quase exclusivamente na intenção de voto. Quem liderava as pesquisas era tratado como favorito; quem vinha atrás precisava “crescer”. Esse raciocínio simples funcionou enquanto o sistema político era menos polarizado e os níveis de rejeição eram relativamente baixos. Mas, desde a década passada, esse modelo se mostrou insuficiente. O Brasil entrou numa era em que a rejeição — e não apenas a preferência — passou a ser um dos principais determinantes do resultado eleitoral. É nesse contexto que ganha relevância o chamado mapa piso–teto, uma ferramenta analítica que ajuda a entender não apenas quem está na frente, mas quem ainda tem espaço real para crescer.

O conceito é simples, mas poderoso. O piso eleitoral representa o patamar mínimo de votos que um candidato possui em determinado momento — sua base consolidada, captada pelas pesquisas de intenção de voto. Já o teto eleitoral é definido pela rejeição: corresponde ao percentual máximo de eleitores que um candidato pode alcançar, calculado como 100% menos a taxa de rejeição. A diferença entre piso e teto revela o espaço disponível para expansão durante a campanha, especialmente no segundo turno, quando a disputa se concentra e os eleitores precisam escolher entre apenas duas alternativas.

Esse mapa não prevê resultados por si só, mas oferece algo talvez mais importante: um diagnóstico estrutural da eleição. Ele indica quem corre atrás do prejuízo, quem já está no limite e quem pode crescer sem precisar de grandes mudanças no ambiente político. Ao observar eleições passadas sob essa lente, padrões claros emergem — e eles ajudam a iluminar o cenário atual.

Quando o espaço decide: eleições passadas sob o mapa piso–teto

Em 2002, na disputa entre Lula e José Serra, o mapa piso–teto favorecia amplamente o então candidato do PT. Lula chegou ao segundo turno com um piso em torno de 45% e uma rejeição relativamente baixa, próxima de 30%. Isso lhe dava um teto alto, acima de 65%, e um amplo espaço de crescimento. Serra, por outro lado, carregava rejeição elevada, próxima de 45%, o que limitava seu teto a algo em torno de 55%. O resultado confirmou o diagnóstico estrutural: Lula cresceu com facilidade durante o segundo turno e venceu com folga, ultrapassando 60% dos votos válidos. Não foi apenas uma vitória política; foi uma vitória matemática do espaço disponível.

O contraste aparece de forma mais dramática em 2014, na eleição entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. Ali, ambos os candidatos chegaram ao segundo turno com rejeições elevadas. Dilma tinha um piso em torno de 42% e rejeição próxima de 46%, enquanto Aécio partia de cerca de 40% com rejeição ao redor de 40%. Os dois estavam perigosamente próximos de seus tetos. O mapa indicava uma eleição apertada, sensível a pequenos choques — e foi exatamente isso que ocorreu. Dilma venceu por uma margem mínima, pouco acima de 51%, num dos segundos turnos mais equilibrados da história recente. Quando os dois candidatos estão próximos do teto, a eleição deixa de ser uma corrida de crescimento e se torna uma disputa de resistência.

Em 2018, o mapa piso–teto voltou a se mostrar decisivo, mas em sentido oposto ao de 2002. Jair Bolsonaro chegou ao segundo turno com piso elevado, em torno de 46%, e rejeição significativa, mas ainda abaixo da do adversário, Fernando Haddad. Haddad, por sua vez, enfrentava rejeição acima de 55%, o que limitava drasticamente seu teto. Na prática, ele já estava próximo ou acima do máximo que poderia alcançar. Bolsonaro, mesmo com rejeição considerável, tinha espaço para crescer ao capturar eleitores antipetistas e indecisos. O resultado foi uma vitória relativamente confortável, em linha com o diagnóstico do mapa.

A eleição de 2022, entre Lula e Bolsonaro, talvez seja o exemplo mais extremo de como o mapa piso–teto pode antecipar o grau de dificuldade de uma disputa. Ambos chegaram ao segundo turno com pisos elevados — Lula em torno de 48%, Bolsonaro perto de 43% — e rejeições também altas, próximas de 45% e 50%, respectivamente. Os dois estavam colados ao teto. O espaço de crescimento era mínimo para ambos, e a eleição se decidiu nos detalhes: participação eleitoral, pequenas migrações de voto, variações regionais. Lula venceu, mas por apenas 1,8 ponto percentual. O mapa não indicava favoritismo confortável para ninguém — e acertou.

O cenário atual: Lula × Tarcísio sob a lente do mapa

É nesse pano de fundo que o cenário hipotético de um segundo turno entre Lula e Tarcísio de Freitas deve ser analisado. As pesquisas recentes indicam um quadro em que as intenções de voto estão relativamente equilibradas, com Lula ligeiramente à frente ou empatado tecnicamente. À primeira vista, isso poderia sugerir um cenário semelhante ao de 2022. Mas a rejeição muda substancialmente a leitura.

Dados agregados de diferentes institutos mostram Lula com rejeição média próxima de 48,5%, enquanto Tarcísio aparece com rejeição em torno de 31,6%. Traduzindo isso para o mapa piso–teto, Lula tem um teto eleitoral em torno de 51,5%, enquanto Tarcísio pode, em tese, alcançar algo próximo de 68%. Quando cruzamos esses números com os pisos atuais — cerca de 47% para Lula e 46% para Tarcísio — o contraste é evidente. Lula está praticamente encostado no teto; Tarcísio está apenas começando a explorar o seu espaço potencial.

Essa configuração é rara para Lula em disputas presidenciais. Em 2002 e 2006, ele tinha amplo espaço de crescimento. Em 2018, não foi candidato. Em 2022, estava próximo do teto, mas enfrentava um adversário igualmente rejeitado. No cenário atual, pela primeira vez, Lula aparece como o candidato com menor margem estrutural para crescer, enfrentando um adversário que combina piso competitivo com rejeição relativamente baixa.

Isso não significa que a vitória de Tarcísio seja inevitável. O mapa piso–teto não substitui a política, a economia ou os eventos imprevisíveis de uma campanha. Lula ainda dispõe de vantagens importantes: maior reconhecimento nacional, base social consolidada, máquina partidária robusta e a capacidade de explorar medos e incertezas associados à direita. Mas o mapa sugere que sua campanha tende a ser defensiva, focada mais em elevar a rejeição do adversário do que em expandir seu próprio eleitorado.

Para Tarcísio, o desafio é o inverso. Ele não precisa conquistar todos os eleitores; basta reduzir resistências, consolidar o voto anti-Lula e captar indecisos. Seu mapa piso–teto é semelhante ao de candidatos que, no passado, conseguiram virar ou vencer eleições a partir de uma posição inicial ligeiramente inferior, como Bolsonaro em 2018 ou mesmo Lula em 2002, ainda que em contextos políticos muito distintos.

O que o mapa ensina — e o que ele não promete

O mapa piso–teto não é uma bola de cristal. Ele não prevê choques econômicos, crises políticas, escândalos ou mudanças abruptas de humor do eleitorado. O que ele faz é algo mais sutil e, talvez por isso, mais valioso: revela as condições estruturais da disputa. Mostra quem corre contra o relógio, quem precisa mudar o jogo e quem pode vencer simplesmente deixando o tempo passar.

Nas eleições brasileiras recentes, esse mapa se mostrou um bom guia para entender por que algumas viradas eram plausíveis e outras, improváveis. Ele ajuda a explicar vitórias largas, derrotas apertadas e disputas decididas no fio da navalha. Aplicado ao cenário atual, ele sugere uma eleição aberta, assimétrica e altamente dependente da dinâmica do segundo turno.

Se a história recente servir de referência, eleições em que um candidato entra com rejeição significativamente menor e piso competitivo raramente são fáceis para o adversário. O mapa não diz quem vencerá, mas indica onde está a pressão. E, no cenário atual, ela parece pesar mais sobre Lula do que sobre Tarcísio.

Em um país cada vez mais polarizado, talvez a pergunta central já não seja “quem está na frente hoje?”, mas “quem ainda tem para onde ir?”. É essa pergunta que o mapa piso–teto ajuda a responder — e é por isso que ele se tornou uma das chaves analíticas mais relevantes para entender o Brasil eleitoral contemporâneo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Bolsonaro nas pesquisas: quem tende a superestimar, quem subestima — e por que o padrão se repete desde 2018


Desde sua ascensão ao centro da política nacional, Jair Bolsonaro tem sido talvez o candidato que mais tensionou o sistema de pesquisas eleitorais no Brasil. Em 2018, sua trajetória foi tratada como um “ponto fora da curva”. Em 2022, sua competitividade até o segundo turno reacendeu acusações de erro sistemático por parte dos institutos. Já no atual ciclo pré-eleitoral de 2026 — mesmo sem Bolsonaro como candidato formal —, o debate ressurge de forma indireta, agora em torno de seus herdeiros políticos. O fio condutor desses três momentos é o mesmo: a percepção de que alguns institutos “subestimam” Bolsonaro, enquanto outros parecem “superestimá-lo”.

Mas o que os dados realmente mostram quando analisados de forma estruturada, histórica e comparável? A resposta, assim como no caso de Lula, é menos intuitiva — e mais interessante — do que o debate público costuma sugerir.

O conceito correto: superestimação e subestimação relativas

Assim como no caso de Lula, falar em superestimação ou subestimação de Bolsonaro não significa falar em erro absoluto frente ao resultado final da eleição. O conceito é relativo ao sistema de pesquisas de cada momento.

Um instituto superestima Bolsonaro quando, de forma persistente, mede sua intenção de voto acima do consenso agregado das pesquisas disponíveis. Subestima quando aparece sistematicamente abaixo desse consenso. O ponto-chave não é um levantamento isolado, mas o padrão recorrente ao longo do tempo.

Esse enquadramento é fundamental para evitar confusões. Um instituto pode subestimar Bolsonaro em relação ao consenso e ainda assim acertar muito bem o resultado final — algo que ocorreu com frequência. O inverso também é verdadeiro.

Por que Bolsonaro tensiona mais as pesquisas?

Bolsonaro expõe limites e escolhas metodológicas porque mobiliza segmentos do eleitorado difíceis de capturar por métodos tradicionais:

  • eleitores com baixa confiança institucional;

  • maior propensão a não responder pesquisas;

  • voto menos declarado em certos contextos sociais;

  • forte clivagem regional e educacional.

Essas características tornam Bolsonaro especialmente sensível a diferenças de método, como modo de coleta, correções de não resposta e ponderações demográficas. Por isso, os desvios relativos entre institutos tendem a ser mais visíveis do que em candidaturas mais “centrais”.

2018: o primeiro grande choque metodológico

A eleição de 2018 foi o marco inaugural desse debate. Bolsonaro começou a campanha como outsider, cresceu rapidamente e venceu a eleição, deixando parte do debate público convencido de que as pesquisas haviam falhado. Uma análise retrospectiva mais cuidadosa, no entanto, mostra algo diferente.

Institutos que tenderam a subestimar Bolsonaro em 2018

  • Datafolha

  • Ibope (hoje Ipec)

  • Vox Populi

Esses institutos, em média, colocavam Bolsonaro abaixo do consenso final, especialmente no primeiro turno. A explicação mais aceita envolve dificuldade de captar o voto conservador menos escolarizado e mais desconfiado de entrevistas presenciais ou telefônicas.

Institutos que tenderam a superestimar Bolsonaro em 2018

  • Paraná Pesquisas

  • Institutos regionais de perfil semelhante

  • Pesquisas com coleta online embrionária

Esses levantamentos frequentemente posicionavam Bolsonaro acima da média do sistema, captando melhor o eleitorado ideológico e mais mobilizado digitalmente.

📌 Importante: mesmo os institutos que “subestimaram” Bolsonaro ficaram, em sua maioria, dentro da margem de erro no resultado final. O choque foi mais narrativo do que estatístico.

2022: a consolidação dos blocos metodológicos

Se 2018 foi o choque, 2022 foi a confirmação de que não se tratava de acaso. Com Bolsonaro candidato à reeleição e enorme volume de pesquisas, os padrões ficaram ainda mais claros.

Institutos que tenderam a medir Bolsonaro abaixo do consenso em 2022

  • Datafolha

  • Ipec

  • Quaest

Esses institutos, que tendiam a medir Lula acima do consenso, apareciam simetricamente com Bolsonaro abaixo. Em vários momentos da campanha, mostraram uma vantagem maior de Lula do que a média do sistema.

Institutos que tenderam a medir Bolsonaro acima do consenso

  • Paraná Pesquisas

  • AtlasIntel

  • Real Time Big Data

Aqui ocorre um ponto crucial: o AtlasIntel, apesar de frequentemente aparecer acima do consenso pró-Bolsonaro, foi um dos institutos que melhor acertaram a diferença final no segundo turno. Isso demonstra, de forma inequívoca, que subestimar ou superestimar em relação ao consenso não implica pior desempenho.

Institutos mais neutros

  • Ipespe

  • Futura

Esses oscilaram em torno do centro do sistema, reagindo mais rapidamente a movimentos conjunturais.

2026: Bolsonaro fora da urna, mas não do sistema

No ciclo atual, Bolsonaro não aparece como candidato, mas seu campo político está longe de desaparecer. Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro e outros nomes funcionam como proxies do eleitorado bolsonarista. O padrão observado nas pesquisas que medem esses candidatos reproduz, de forma impressionante, o mesmo desenho visto em 2018 e 2022.

Institutos que historicamente captaram melhor o voto bolsonarista seguem colocando seus herdeiros políticos em patamares relativamente mais altos. Outros continuam mais cautelosos, especialmente quando esses votos se confundem com indecisos ou rejeição difusa.

Ou seja: o padrão sobrevive ao próprio Bolsonaro.

Qualidade histórica: há diferença entre os grupos?

Assim como no caso de Lula, a resposta é clara: não há evidência estatística de diferença significativa de qualidade entre os grupos.

Avaliações históricas de desempenho, como as consolidadas no Pindograma (2012–2022), mostram que:

  • Institutos nota A aparecem tanto entre os que superestimam quanto entre os que subestimam Bolsonaro.

  • As médias de erro histórico são semelhantes.

  • As diferenças observadas são dominadas por variância interna e tamanho amostral limitado.

Isso reforça uma conclusão incômoda para narrativas simplistas: não existe um “lado certo” metodologicamente.


O que tudo isso nos ensina?

A análise longitudinal de Bolsonaro nas pesquisas permite extrair algumas lições robustas:

  1. Bolsonaro é um teste de estresse para métodos de pesquisa, não uma anomalia estatística.

  2. Os mesmos institutos mantêm posições relativas estáveis ao longo do tempo.

  3. Superestimação e subestimação são características estruturais, não falhas morais ou técnicas.

  4. Agregação é indispensável para neutralizar vieses direcionais.

  5. O erro percebido pelo público é muitas vezes narrativo, não estatístico.

Conclusão: o valor da pluralidade metodológica

Ao observar Bolsonaro em 2018, 2022 e 2026, a evidência aponta para uma conclusão inequívoca: o sistema de pesquisas brasileiro funciona melhor quando analisado como um ecossistema, não como uma competição entre institutos isolados.

Institutos diferentes enxergam partes diferentes do eleitorado. Bolsonaro — mais do que qualquer outro candidato recente — expôs essa verdade de forma crua. Em vez de desacreditar pesquisas, essa constatação deveria levar ao oposto: mais sofisticação na leitura, menos caça às bruxas.

No fim das contas, o erro mais comum não está nos números. Está na interpretação.

O que significa “superestimar” ou “subestimar” um candidato — e por que isso importa nas pesquisas eleitorais


Por Tulio Kahn

A cada ciclo eleitoral brasileiro, um debate reaparece com força quase automática: quais institutos “erraram”, quais “acertaram” e quem estaria “inflando” ou “escondendo” o apoio a determinados candidatos. No centro desse debate, especialmente quando Luiz Inácio Lula da Silva está no páreo, surgem acusações recorrentes de que certas pesquisas “superestimam” o petista, enquanto outras o “subestimam”. O problema é que, na maioria das vezes, esses termos são usados de forma imprecisa, confundindo conceitos estatísticos, diferenças metodológicas e julgamentos políticos.

Entender corretamente o que é superestimação ou subestimação não é apenas um exercício acadêmico. Trata-se de uma chave fundamental para interpretar pesquisas de opinião, evitar conclusões apressadas e compreender por que leituras isoladas costumam ser enganosas. A análise cuidadosa de dados das eleições presidenciais passadas — especialmente 2018 e 2022 — e do atual ciclo pré-eleitoral de 2026 mostra que essas tendências existem, são recorrentes, mas não significam manipulação nem incompetência. Elas refletem, antes de tudo, estilos metodológicos distintos.


O conceito: superestimação e subestimação não são “erro”

Do ponto de vista técnico, dizer que um instituto “superestima” Lula não significa dizer que ele “erra mais” ou que esteja “puxando” resultados de forma deliberada. O conceito correto é relativo, não absoluto.

Superestimação ocorre quando um instituto, de forma sistemática, mede a intenção de voto de um candidato acima do consenso formado pelo conjunto das pesquisas. Subestimação ocorre quando esse mesmo instituto, também de maneira recorrente, aparece abaixo desse consenso. O ponto central é a persistência do desvio — não um resultado isolado.

Esse consenso, por sua vez, não é uma média simples. Ele emerge de agregações estatísticas que ponderam pesquisas por precisão, recência e desempenho histórico. Em outras palavras, o consenso é uma tentativa de estimar o “centro de gravidade” do eleitorado naquele momento. Estar acima ou abaixo dele não implica estar certo ou errado em relação ao resultado final da eleição.

Essa distinção é crucial. Um instituto pode subestimar Lula em relação ao consenso e, ainda assim, acertar com grande precisão o resultado final — como ocorreu em 2022. Da mesma forma, um instituto pode superestimar Lula em diversos momentos e continuar dentro da margem de erro no dia da eleição.

Por que essas diferenças existem?

As causas da superestimação ou subestimação são estruturais. Institutos não medem “o eleitorado brasileiro” de forma homogênea; eles medem amostras e tentam corrigir imperfeições com modelos próprios. Entre os fatores que explicam diferenças persistentes estão:

  • Modo de coleta (presencial, telefone, online);

  • Tratamento de indecisos e não resposta;

  • Ponderações regionais e socioeconômicas;

  • Sensibilidade a voto envergonhado ou socialmente pressionado;

  • Formulação de perguntas e ordem dos estímulos.

Esses elementos tendem a ser estáveis ao longo do tempo. Institutos raramente “mudam de personalidade metodológica” entre eleições. Por isso, padrões observados em 2018 reaparecem em 2022 e voltam a se manifestar no atual ciclo.

Os grupos metodológicos: quem mede Lula acima, abaixo ou perto do consenso

Ao analisar o comportamento relativo dos principais institutos ao longo de múltiplos ciclos eleitorais, é possível identificar três grandes grupos.

Institutos que tendem a medir Lula acima do consenso

Neste grupo aparecem, de forma recorrente:

  • Datafolha

  • Ipec (ex-Ibope)

  • Quaest

Esses institutos costumam capturar com mais intensidade o voto lulista declarado, especialmente em regiões de menor renda e no Nordeste. Em médias móveis e agregações, frequentemente posicionam Lula alguns pontos acima do centro do sistema. Isso não significa erro: em vários momentos, especialmente em 2022, esses levantamentos anteciparam corretamente movimentos de crescimento do petista.

Institutos que tendem a medir Lula abaixo do consenso

Aqui se destacam:

  • AtlasIntel

  • Paraná Pesquisas

  • Real Time Big Data

Esses institutos, em geral, apresentam Lula em patamares inferiores ao agregado, muitas vezes compensados por números mais altos para candidatos conservadores. Metodologias online, correções agressivas de não resposta e maior sensibilidade ao voto silencioso ajudam a explicar esse padrão.

Institutos mais neutros ou oscilantes

Alguns institutos não apresentam viés direcional claro, alternando posições ao redor do consenso:

  • Ipespe

  • Vox Populi

  • Futura

  • Ideia Big Data

Eles tendem a reagir mais rapidamente a mudanças conjunturais e, por isso, aparecem ora acima, ora abaixo do agregado.

As eleições passadas: o padrão já existia?

2018: Lula fora da urna, mas presente nos dados

Embora Lula tenha sido impedido de concorrer em 2018, ele foi medido intensamente até sua inelegibilidade, e depois transferiu capital político para Fernando Haddad. Esse ciclo já revelou padrões claros. Datafolha e Ibope frequentemente mediam Lula — e depois Haddad — acima do consenso, enquanto Paraná Pesquisas e institutos similares mostravam desempenho mais forte para Jair Bolsonaro.

Mesmo sem Lula na urna, o “efeito Lula” já se manifestava de forma assimétrica entre institutos. Isso indica que o fenômeno não depende exclusivamente do candidato, mas da forma como cada instituto enxerga o eleitorado.

2022: evidência direta e incontornável

A eleição de 2022 oferece o teste mais robusto. Com grande volume de pesquisas e resultado conhecido, foi possível observar com clareza o comportamento relativo dos institutos.

Datafolha, Ipec e Quaest frequentemente posicionaram Lula acima da média do sistema. Paraná Pesquisas, AtlasIntel e Real Time Big Data, por outro lado, o colocaram abaixo. Ainda assim, institutos de ambos os grupos apresentaram bom desempenho no resultado final. O AtlasIntel, por exemplo, apesar de subestimar Lula em vários momentos, acertou com precisão a diferença no segundo turno.

Isso demonstra que viés relativo não equivale a erro absoluto.

O ciclo atual: 2026 e a repetição do padrão

No atual cenário pré-eleitoral de 2026, o mesmo desenho reaparece. Agregações que ponderam recência, precisão e qualidade histórica indicam Lula em torno de 40% das intenções de voto. Mais uma vez, Quaest, Ipec e Datafolha tendem a aparecer acima desse valor, enquanto AtlasIntel, Paraná Pesquisas e Real Time Big Data ficam abaixo.

A repetição do padrão em três ciclos consecutivos reforça a interpretação estrutural. Não se trata de manipulação nem de coincidência. Trata-se de estilos metodológicos consistentes, que capturam diferentes “faces” do eleitorado brasileiro.

E a qualidade dos institutos? O que diz a evidência histórica

Uma pergunta inevitável é se esses grupos diferem em qualidade. A resposta, sustentada por avaliações históricas como o Pindograma — que mede o erro médio dos institutos entre 2012 e 2022 — é clara: não há diferença estatisticamente significativa entre os grupos.

Institutos nota A aparecem tanto entre os que superestimam quanto entre os que subestimam Lula. As médias de erro histórico são semelhantes, e as diferenças observadas são pequenas demais para serem estatisticamente relevantes. Isso reforça a ideia de que o viés relativo é uma característica metodológica, não um indicador de competência.

As conclusões principais

A análise integrada de conceitos, dados históricos e evidências atuais permite chegar a algumas conclusões sólidas:

  1. Superestimação e subestimação são conceitos relativos, não acusações de erro ou fraude.

  2. Os mesmos padrões se repetem ao longo do tempo, atravessando eleições distintas.

  3. Esses padrões não estão associados à qualidade histórica dos institutos.

  4. Leituras isoladas são enganosas; o valor analítico está na agregação.

  5. A diversidade metodológica é uma virtude, não um defeito, do sistema de pesquisas.

Em última instância, entender essas diferenças é essencial para qualificar o debate público. Em vez de perguntar “qual instituto está certo?”, a pergunta mais produtiva é: o que o conjunto das pesquisas está dizendo, e como diferentes metodologias iluminam partes distintas do eleitorado?

Num ambiente político cada vez mais polarizado, essa distinção não é apenas técnica. Ela é democrática.

Lula lidera com folga, mas disputa pelo segundo turno se acirra entre Tarcísio e Flávio Bolsonaro


A corrida presidencial de 2026 ainda está distante no calendário, mas já suficientemente avançada nos dados para permitir análises mais sofisticadas do que a simples leitura de pesquisas isoladas. A consolidação de levantamentos nacionais realizados ao longo de 2024 e 2025 revela um quadro relativamente estável na liderança — com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente —, mas cada vez mais dinâmico na disputa pela segunda vaga no eventual segundo turno. Nesse embate, dois nomes se destacam: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o senador Flávio Bolsonaro, agora considerado como o único representante do chamado “clã Bolsonaro” na disputa.

Uma análise bayesiana agregada de pesquisas, construída a partir de um modelo que pondera precisão estatística, recência e desempenho histórico dos institutos, aponta Lula como franco favorito para liderar o primeiro turno. No entanto, ao ajustar os parâmetros do modelo para privilegiar tendências mais recentes, a diferença entre Tarcísio e Flávio diminui de forma relevante, transformando o segundo lugar em uma disputa genuinamente aberta — ainda que com vantagem estatística para o governador paulista.


Uma metodologia além da média simples

Diferentemente de médias aritméticas tradicionais, o modelo utilizado nesta análise adota uma abordagem bayesiana de agregação de pesquisas, inspirada em modelos internacionais consagrados, mas calibrada para a realidade brasileira. O objetivo central é responder não apenas “quem está na frente”, mas com que grau de confiança, com base em quais evidências e sob quais suposições explícitas.

Cada observação de pesquisa é tratada como uma medida imperfeita da verdadeira intenção de voto do eleitorado. Em termos estatísticos, assume-se que o valor observado segue uma distribuição normal centrada no “valor verdadeiro” do candidato, com desvio-padrão aproximado pela margem de erro do levantamento (dividida por 1,96, para conversão ao nível de 95% de confiança).

A atualização bayesiana ocorre por meio de uma média ponderada, na qual o peso final de cada observação resulta da multiplicação de três componentes principais:

  1. Precisão estatística, derivada da margem de erro e do tamanho da amostra. Pesquisas mais precisas — geralmente com amostras maiores — têm maior influência no agregado.

  2. Recência temporal, modelada por uma função exponencial de decaimento. Pesquisas antigas “perdem peso” gradualmente, refletindo a ideia de que o eleitorado muda ao longo do tempo.

  3. Qualidade histórica do instituto, medida a partir do desempenho passado em eleições reais (2012–2022), conforme uma tabela de avaliação elaboarda pelo “Pindograma”, que comparou predições de dezenas de institutos e resultados oficiais das eleições.

Além disso, o modelo aplica uma correção específica para pesquisas que apresentam múltiplos cenários com a mesma amostra. Nesses casos, o peso total da pesquisa é dividido pelo número de cenários, evitando que um único levantamento tenha influência desproporcional apenas por testar muitas combinações de candidatos.


Parâmetros centrais: por que τ = 10 muda o jogo

Um dos parâmetros mais importantes do modelo é o τ (tau), que controla a velocidade do decaimento temporal. Em termos simples, τ responde à pergunta: quanto tempo uma pesquisa permanece “relevante” para o retrato atual da disputa?

No cenário analisado neste artigo, τ foi fixado em 10 dias, um valor que privilegia fortemente o curto prazo. Isso significa que levantamentos realizados há um mês, por exemplo, têm peso substancialmente menor do que aqueles feitos nas últimas duas semanas. A escolha de τ = 10 não é neutra: ela reflete a hipótese de que o eleitorado está em fase de reorganização e que sinais recentes capturam melhor o estado atual da corrida.

Esse ajuste é decisivo para a comparação entre Tarcísio e Flávio Bolsonaro. Enquanto Tarcísio apresenta desempenho mais robusto no conjunto total de pesquisas, Flávio tende a aparecer melhor posicionado justamente nos levantamentos mais recentes. Ao reduzir τ, o modelo passa a “escutar” mais esses sinais novos — e menos o histórico acumulado.


O cenário agregado: Lula líder, segundo lugar em disputa

Com τ = 10 e considerando Flávio Bolsonaro como o único candidato do campo bolsonarista (excluindo Michele e Eduardo Bolsonaro, sem redistribuição automática de votos), o retrato do primeiro turno é o seguinte:

Lula aparece com cerca de 40,7% das intenções de voto, com intervalo de credibilidade relativamente estreito, refletindo grande volume de dados e alta consistência entre pesquisas. Em praticamente 100% das simulações de Monte Carlo, ele lidera o primeiro turno e avança ao segundo.

A disputa real, portanto, ocorre pelo segundo lugar. Tarcísio de Freitas surge com aproximadamente 25,7%, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 23,8%. A diferença entre os dois é pequena em termos políticos, mas estatisticamente relevante quando se consideram incertezas e distribuição de probabilidades.

Ao simular 200 mil cenários possíveis — sorteando valores para cada candidato a partir de suas distribuições estimadas —, o modelo indica que Tarcísio termina entre os dois primeiros colocados em cerca de 87,5% dos casos, enquanto Flávio o faz em aproximadamente 12,5%. Em outras palavras: Tarcísio é favorito, mas Flávio deixou de ser azarão irrelevante.


Por que Tarcísio ainda lidera a corrida pelo segundo turno

A vantagem de Tarcísio decorre de alguns fatores principais. O primeiro é volume de evidência. O governador paulista aparece em mais pesquisas, em mais cenários, e com maior peso total no agregado. Isso reduz sua incerteza estatística e torna sua estimativa mais “rígida”.

O segundo fator é a penetração nacional. Embora Flávio Bolsonaro tenha forte identificação com o eleitorado bolsonarista mais fiel, Tarcísio consegue dialogar com segmentos mais amplos do centro-direita e até com eleitores pragmáticos que rejeitam tanto o lulismo quanto o bolsonarismo mais ideológico.

O terceiro fator é institucional. Governadores em exercício, especialmente de estados grandes como São Paulo, costumam se beneficiar de maior visibilidade administrativa e de redes políticas mais capilarizadas — algo que, historicamente, se traduz em desempenho mais estável nas pesquisas.


O avanço de Flávio Bolsonaro e seus limites

Ainda assim, o crescimento relativo de Flávio Bolsonaro no cenário de curto prazo não é desprezível. Ao concentrar em si a identidade do “candidato do clã Bolsonaro”, ele elimina a fragmentação interna que, nos cenários anteriores, diluía o eleitorado bolsonarista entre Michele, Eduardo e outros nomes.

O modelo, no entanto, faz uma escolha metodológica crucial: não redistribui automaticamente votos de candidatos excluídos. Isso significa que o desempenho de Flávio reflete apenas aquilo que as pesquisas efetivamente mediram quando ele esteve presente como opção — e não uma suposição de transferência perfeita de apoio.

Esse ponto é central para a interpretação política. O resultado sugere que há um teto relevante para Flávio fora do núcleo duro bolsonarista. Para superar Tarcísio de forma consistente, ele precisaria não apenas herdar votos internos do campo conservador, mas também expandir sua aceitação para além dele, algo que ainda não aparece de forma clara nos dados.


Uma disputa aberta, mas assimétrica

Do ponto de vista jornalístico e político, a leitura mais honesta dos números é a seguinte: a vaga no segundo turno contra Lula está em disputa, mas não em igualdade de condições. Tarcísio entra como favorito, com algo entre sete e oito chances em dez de avançar. Flávio Bolsonaro, por sua vez, aparece como um desafiante real, mas dependente de condições específicas: manutenção da tendência recente, enfraquecimento do governador paulista ou um evento político que reorganize o campo da direita.

O cenário está longe de cristalizado. O próprio modelo reconhece isso ao exibir incertezas explícitas e probabilidades — e não certezas categóricas. Em um ambiente de polarização, fadiga do eleitorado e possíveis choques econômicos ou institucionais, mudanças não são apenas possíveis, mas esperadas.


O que os números dizem — e o que não dizem

É fundamental separar análise estatística de previsão determinística. O modelo não afirma que Tarcísio estará no segundo turno, nem que Flávio não estará. Ele afirma algo mais sutil — e mais honesto: dadas as pesquisas disponíveis, seus pesos, suas qualidades históricas e a ênfase no curto prazo, este é o retrato probabilístico mais consistente hoje.

Se a eleição fosse hoje, Lula estaria praticamente garantido no segundo turno. A outra vaga, no entanto, permanece como o principal campo de batalha da política brasileira em 2026. Entre Tarcísio e Flávio Bolsonaro, os dados sugerem vantagem para o primeiro — mas não imunidade para o segundo.

E é justamente nessa zona cinzenta, entre a estatística e a política, que a eleição será decidida.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Quem tem mais condições de enfrentar Lula em um segundo turno? Uma leitura comparada das pesquisas de intenção de voto e rejeição


À medida que o cenário político brasileiro avança rumo ao ciclo eleitoral de 2026, pesquisas de opinião começam a traçar um retrato mais nítido não apenas sobre as preferências do eleitorado, mas também sobre a capacidade competitiva de diferentes nomes em um eventual segundo turno. A discussão sobre quem teria mais condições de enfrentar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — cuja intenção de voto segue elevada — cruza dois tipos de indicadores fundamentais: o apoio conquistado no primeiro turno e a rejeição acumulada por cada potencial adversário.


Nesse contexto, a disputa pela liderança da oposição ganha contornos ainda mais relevantes, sobretudo diante da visibilidade do campo bolsonarista, que há meses debate a definição do seu principal representante. Se, por hipótese, a figura escolhida for Flávio Bolsonaro, cabe perguntar: entre os principais nomes desse campo, quem realmente possui as melhores condições estruturais de enfrentar Lula em um segundo turno?

Os dados usados para esta análise provêm de um agregado bayesiano de intenção de voto, construído a partir de mais de uma centena de levantamentos de 2024 e 2025, e de um conjunto menor — porém significativo — de pesquisas de rejeição realizadas por institutos como Datafolha, Ipec, Paraná Pesquisas e Quaest. Esses dois pilares permitem observar não apenas o tamanho atual das candidaturas, mas também seus limites, potencial de crescimento e grau de resistência no eleitorado.

Lula: alta intenção de voto e rejeição igualmente elevada

O desempenho de Lula em pesquisas de primeiro turno permanece expressivo. Os agregados apontam o petista consistentemente na liderança, com cerca de 40% das intenções de voto. Trata-se de um índice robusto e relativamente estável ao longo dos meses. No entanto, a outra face dessa força eleitoral é sua rejeição elevadíssima, superior a 45% em média. Em eleições polarizadas, rejeição funciona como um teto — um limite além do qual o candidato encontra dificuldades para expandir seu apoio, especialmente quando o voto útil se converte em um cálculo de exclusão.

Isso significa que, embora Lula parta de uma posição privilegiada no primeiro turno, o comportamento do eleitorado em um segundo turno dependeria de como o adversário se comporta nos mesmos dois eixos: tamanho atual e rejeição acumulada. É justamente aí que se revelam diferenças profundas entre os nomes do bloco oposicionista.

O desafio bolsonarista: tamanho eleitoral não compensa rejeição alta

Se o representante natural do campo fosse Flávio Bolsonaro — possibilidade já aventada em discussões internas —, sua competitividade dependeria de equilibrar o capital eleitoral herdado do bolsonarismo com a rejeição associada à família. Os dados, porém, evidenciam que esse equilíbrio tende a ser desfavorável.

Flávio aparece com cerca de 24% na média das intenções de voto do primeiro turno, um desempenho relevante, mas distante da disputa direta pelo segundo lugar. Sua rejeição, entretanto, figura entre as mais altas: cerca de 38%, número que o aproxima perigosamente da rejeição atribuída ao próprio Lula. Isso cria um cenário estruturalmente desfavorável: quando dois candidatos têm rejeição semelhante, o eleitor do centro — geralmente decisivo no segundo turno — tende a optar pelo nome que considera menos polarizador ou mais previsível. Nessa métrica, Flávio enfrenta obstáculos semelhantes aos de figuras como Eduardo Bolsonaro, cuja rejeição ultrapassa 40% em certas pesquisas.

Esse ponto é crucial: não basta entrar no segundo turno — é preciso vencer nele, e rejeição alta costuma ser um entrave difícil de superar. A própria história eleitoral brasileira demonstra que candidaturas de forte polarização negativa raramente ampliam seus votos no segundo turno além do núcleo duro. A rejeição funciona como um mecanismo de contenção: impede o fluxo natural de votos anti-governo ou anti-Lula quando o eleitor percebe na alternativa um risco igual ou maior.

Em contraste com Flávio, outros nomes do mesmo campo exibem características distintas — e, em alguns casos, muito mais favoráveis.

Michele Bolsonaro: um desempenho forte no primeiro turno, mas rejeição ainda alta

Michele Bolsonaro aparece empatada tecnicamente com Tarcísio de Freitas no agregado nacional de intenção de voto, ambos na casa dos 28%. Esse desempenho coloca a ex-primeira-dama como um dos nomes mais competitivos do campo da direita para chegar ao segundo turno. No entanto, seu índice de rejeição — na faixa de 36% — representa uma barreira significativa. Embora mais baixa que a de Flávio e Eduardo, ainda é elevada o suficiente para limitar a expansão no eleitorado moderado, sobretudo entre mulheres e entre eleitores menos ideológicos.

Em cenários simulados de segundo turno, candidaturas com rejeição acima de 35% tendem a enfrentar dificuldades para capturar o voto anti-Lula moderado, que geralmente decide a eleição. Michele aparece, assim, como uma adversária mais competitiva que Flávio, mas ainda aquém do desempenho potencial de outro nome da direita.

Tarcísio de Freitas: o nome com melhor equilíbrio entre tamanho eleitoral e capacidade de expansão

Tarcísio de Freitas se destaca por um fator que tem sido raríssimo na política brasileira contemporânea: baixa rejeição nacional. Com algo entre 19% e 21%, seu índice é menos da metade do observado entre os Bolsonaro. Isso dá ao governador de São Paulo uma vantagem estrutural decisiva em cenários de segundo turno.

O que significa isso na prática?

Primeiro, Tarcísio parte de uma intenção de voto semelhante à de Michele — cerca de 28% —, o que o coloca no grupo de candidatos com maior probabilidade de alcançar o segundo turno. Mas sua rejeição baixa lhe oferece algo ainda mais importante: potencial real de crescimento. Eleitores que rejeitam Lula podem migrar mais facilmente para Tarcísio do que para nomes altamente polarizadores. Eleitores indecisos ou moderados, que rejeitam a retórica mais agressiva do bolsonarismo, também encontram em Tarcísio um perfil menos conflitivo.

Esse duplo movimento — aceitação entre antipetistas e ausência de rejeição significativa entre o centro — cria uma zona de expansão que nenhum outro nome da direita possui hoje. Em simulações conceituais de segundo turno, esse tipo de perfil tende a gerar disputas mais equilibradas contra Lula, não porque Tarcísio já tenha apoio superior, mas porque suas barreiras são menores.

Em análises estruturais, candidaturas com rejeição baixa, mesmo que iniciem com menos votos declarados, são mais competitivas no segundo turno do que candidaturas com rejeição alta e voto inicial maior. Esse princípio explica fenômenos históricos no Brasil e no exterior — e se encaixa com precisão no avanço de Tarcísio na arena nacional.

A leitura combinada dos dados: quem aparece mais competitivo contra Lula?

Quando agregamos intenção de voto e rejeição, surge um retrato claro:

  • Flávio Bolsonaro enfrenta o maior conjunto de obstáculos. Sua rejeição quase tão alta quanto a de Lula reduz drasticamente sua capacidade de avançar num segundo turno.

  • Michele Bolsonaro tem boa intenção de voto, mas rejeição ainda elevada para uma disputa que exige atração do eleitor moderado.

  • Tarcísio de Freitas combina intenção de voto competitiva com a menor rejeição de toda a direita, o que o coloca como o adversário estruturalmente mais forte contra Lula.

A pergunta que orientou esta análise foi: “Quem tem maiores condições de vencer Lula num segundo turno?”
Com base estrita nos dados disponíveis de intenção de voto e rejeição, a resposta é inequívoca:

→ Tarcísio de Freitas é o candidato hoje com melhores condições relativas de enfrentar e eventualmente superar Lula em um segundo turno.

Essa conclusão não equivale a uma previsão. Trata-se de uma leitura comparativa fundada no comportamento registrado nas pesquisas. Em política, cenários mudam, campanhas redefinem percepções e eventos inesperados podem reconfigurar todo o tabuleiro. Mas, com os números atuais, o quadro é consistente: a vantagem de Tarcísio está na combinação entre competitividade e baixa rejeição, um par raríssimo na política brasileira recente.

Sua competitividade contra Lula não nasce de intenção de voto elevada no presente, mas da ausência de obstáculos para crescer. Enquanto outros nomes enfrentam resistência difícil de superar, Tarcísio aparece como o único capaz de expandir sua base para além do eleitorado já decidido, conquistando setores que usualmente decidem o segundo turno.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A eleição como processo: como um modelo bayesiano ajuda a entender 2026

 A discussão sobre a eleição presidencial de 2026 costuma oscilar entre dois extremos: a leitura puramente intuitiva, baseada em impressões políticas, e a leitura mecânica de pesquisas isoladas, tratadas como fotografias definitivas do eleitorado. O exercício apresentado aqui parte de uma premissa diferente. Ele trata a eleição como um processo dinâmico, no qual preferências, rejeições e expectativas de viabilidade interagem ao longo do tempo. Para isso, foi construído um modelo bayesiano de agregação de pesquisas combinado com simulações probabilísticas de primeiro e segundo turno.

O objetivo não é prever o resultado com precisão absoluta, mas mapear estruturas, identificar pontos de inflexão e estimar probabilidades condicionais sob diferentes cenários políticos.


Como as pesquisas foram combinadas

O ponto de partida foi um banco de pesquisas nacionais de intenção de voto para o primeiro turno, cobrindo múltiplos institutos, datas e cenários. Cada observação foi tratada individualmente, respeitando três princípios centrais:

  1. Precisão estatística: pesquisas com menor margem de erro receberam mais peso. Formalmente, o peso de precisão foi definido como o inverso do quadrado da margem de erro.

  2. Recência: pesquisas mais antigas foram progressivamente depreciadas. Esse efeito foi modelado por uma função exponencial do tempo, com parâmetro de decaimento τ = 15 dias. Na prática, isso significa que uma pesquisa perde cerca de metade de seu peso a cada duas semanas.

  3. Atualização bayesiana: em vez de simples médias, cada nova pesquisa foi tratada como uma observação que atualiza uma crença prévia sobre o verdadeiro nível de apoio de cada candidato. O erro amostral foi aproximado por uma distribuição normal, com desvio-padrão derivado da margem de erro.

O resultado desse processo é uma estimativa posterior para cada candidato, acompanhada de intervalo de credibilidade de 95% e de uma medida de “número efetivo de pesquisas”, que indica quanta informação independente realmente sustenta a estimativa.


O retrato do primeiro turno

A agregação aponta para um cenário relativamente estável no topo. Luiz Inácio Lula da Silva aparece consistentemente na liderança, em torno de 41% das intenções de voto, com intervalo estreito e probabilidade próxima de 100% de terminar o primeiro turno em primeiro lugar.

A disputa real se concentra na segunda posição. Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro surgem tecnicamente empatados, ambos na casa dos 27% a 28% quando se consideram diferentes cenários. Outros nomes — como Ratinho Jr., Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Michelle Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro — aparecem com percentuais menores, mas desempenham papel crucial como reservatórios de voto em um eventual processo de aglutinação.

Esse retrato, no entanto, é apenas a superfície. Para entender o que pode acontecer quando a campanha afunila, é preciso ir além da intenção de voto bruta.


A lógica da aglutinação: ideologia, rejeição e voto útil

A hipótese central testada no modelo é a de uma eleição que se organiza em torno de três polos: Lula à esquerda, Flávio Bolsonaro como representante da família Bolsonaro e do bolsonarismo identitário, e Tarcísio de Freitas como candidato da direita e do centro-direita institucional.

Nesse contexto, os votos dos demais candidatos não se redistribuem de forma aleatória. Eles seguem padrões relativamente previsíveis, determinados por afinidade ideológica, rejeição pessoal e percepção de viabilidade.

Para capturar esse mecanismo, foi construído um funil de redistribuição com três etapas:

  1. Triagem ideológica: o eleitor tende a migrar primeiro para o candidato mais próximo de sua posição no espectro político.

  2. Filtro da rejeição: candidatos com rejeição elevada perdem parte significativa dos votos marginais nesse estágio.

  3. Voto útil: à medida que a eleição se polariza, cresce a migração para quem é percebido como capaz de vencer o adversário principal.

Dados de rejeição múltipla — que medem o percentual do eleitorado que afirma não votar de forma alguma em determinado candidato — são centrais nesse processo. Eles funcionam como um teto estrutural para o crescimento.


O papel da rejeição

Os números de rejeição ajudam a explicar por que o funil favorece determinados nomes. Lula e os membros da família Bolsonaro apresentam rejeições elevadas, acima de 35%. Já Tarcísio de Freitas aparece com rejeição em torno de 20%, nível semelhante ao de outros governadores de centro-direita.

Na prática, isso significa que, em um ambiente de voto útil, Tarcísio perde menos eleitores ao longo do funil. Ele se torna o destino natural de eleitores antipetistas que rejeitam a família Bolsonaro, bem como de eleitores de centro que buscam estabilidade e governabilidade.


Do primeiro ao segundo turno: como as simulações foram feitas

Para simular o segundo turno, foi adotado um modelo probabilístico que combina dois componentes:

  • Força de base, derivada do desempenho relativo no primeiro turno.

  • Disponibilidade eleitoral, aproximada pelo complemento da rejeição (100% menos rejeição).

Esses dois componentes foram combinados por um parâmetro λ, que representa o peso relativo da base histórica versus o comportamento estratégico no segundo turno. Em cenários moderados, λ variou entre 0,45 e 0,70. Em cenários mais duros, λ foi reduzido para o intervalo entre 0,15 e 0,45, refletindo maior peso da rejeição e do voto útil.

Além disso, foram introduzidos choques estocásticos para representar:

  • Viés anti-incumbente, penalizando o candidato associado ao governo.

  • Coordenação antipetista, isto é, a capacidade do campo adversário de se unir contra Lula.

  • Aumento de brancos, nulos e abstenção, típico de disputas altamente polarizadas.

Cada cenário foi simulado centenas de milhares de vezes, permitindo estimar probabilidades de vitória e intervalos de resultados plausíveis.


Resultados: dois segundos turnos muito diferentes

As simulações mostram um contraste claro entre os dois confrontos possíveis.

Em um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, Lula aparece como favorito mesmo em cenários adversos. A rejeição elevada de Flávio limita sua capacidade de agregar eleitores fora do núcleo bolsonarista. Em cenários moderados, Lula vence com margem confortável. Em cenários duros, a disputa se aproxima do empate, mas Lula ainda mantém vantagem média.

Já no confronto entre Lula e Tarcísio de Freitas, o cenário é mais delicado para o presidente. Em ambientes políticos neutros ou levemente favoráveis ao governo, Lula ainda vence na maioria das simulações, embora por margens estreitas. No entanto, quando se introduz um viés anti-incumbente moderado e coordenação eficaz do campo antipetista, Tarcísio passa a ser favorito, vencendo a ampla maioria das simulações.


O stress test: onde está o ponto de inflexão

O stress test buscou responder a uma pergunta objetiva: quanto desgaste é necessário para que Lula perca para Tarcísio no segundo turno?

Os resultados são claros. Basta um viés anti-incumbente da ordem de meio ponto percentual a um ponto percentual para que a probabilidade de vitória de Lula caia drasticamente. A partir daí, o cenário passa a favorecer Tarcísio de forma consistente.

Em outras palavras, o confronto Lula–Tarcísio é altamente sensível ao humor do eleitorado. Pequenas mudanças na avaliação do governo ou no clima econômico podem ter efeitos desproporcionais sobre o resultado final.


Conclusão: o que o modelo ensina

O exercício não afirma que a eleição de 2026 está decidida. Pelo contrário. Ele mostra que o desfecho depende menos de oscilações marginais nas pesquisas de primeiro turno e mais de fatores estruturais: rejeição, coordenação política e percepção de desempenho do governo.

Lula parte com vantagem clara no primeiro turno e contra adversários de alta rejeição. Já Tarcísio de Freitas surge como o único nome capaz de transformar um cenário de desgaste moderado em vitória eleitoral, justamente por combinar identidade de direita com baixos níveis de rejeição.

Em síntese, o modelo sugere que a eleição de 2026 não será apenas uma disputa de preferências, mas um plebiscito sobre o governo e, sobretudo, sobre quem consegue ocupar o espaço do voto útil em um país profundamente polarizado.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Eleição aberta: cenário ajustado mostra disputa acirrada entre Lula e Tarcísio

 A sequência de pesquisas de 2025 mostra um quadro de aparente estabilidade no confronto direto entre Luiz Inácio Lula da Silva e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. No agregado bayesiano das 48 pesquisas realizadas ao longo do ano, ponderadas por precisão e recência com τ = 10 — parâmetro que privilegia mais fortemente os levantamentos mais próximos de dezembro — Lula aparece à frente com 45,6% das intenções de voto, contra 44,6% de Tarcísio. A diferença média entre os dois é de cerca de um ponto percentual, com intervalo de credibilidade estreito: de 44,6% a 46,7% para Lula e de 43,6% a 45,7% para Tarcísio. Em termos estatísticos estritos, isso coloca Lula como favorito no retrato das pesquisas, com aproximadamente 90% de probabilidade de estar de fato numericamente à frente na conjuntura atual. Contudo, essa vantagem modesta esconde uma dinâmica eleitoral muito mais complexa quando se considera o comportamento típico do eleitor em disputas de segundo turno.



As pesquisas diretas são importantes, mas não capturam três elementos centrais na mecânica do voto majoritário: a rejeição, a redistribuição dos votos dos demais candidatos e a migração final dos indecisos. Esses fatores, historicamente decisivos, alteram de forma expressiva o equilíbrio observado nas intenções de voto. No caso específico de Lula, a rejeição medida sistematicamente ao longo de 2025 permanece alta, em torno de 44%. Em modelos eleitorais, rejeição acima de 40% constitui uma barreira estrutural: limita o teto do candidato e reforça a tendência de que parte substantiva do eleitorado que não vota no incumbente no primeiro turno opte quase automaticamente pelo adversário mais competitivo no segundo. Assim, embora Lula lidere numericamente nas pesquisas diretas, ele entra no segundo turno carregando um passivo eleitoral que precisa ser compensado com desempenho superior entre indecisos e entre setores centristas — algo que nem sempre se concretiza.

A redistribuição dos votos dos demais candidatos também desempenha papel crucial. No agregado de 2025, cerca de 30% a 32% dos eleitores declaram preferência por nomes alternativos — Michele Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Caiado, Zema, Ratinho, candidatos do centro e centro-esquerda minoritária. Quando esses votos precisam se realocar no segundo turno, as pesquisas de 2025 e os padrões históricos sugerem uma divisão bastante assimétrica. Eleitores da direita ideológica e do bolsonarismo — aproximadamente 15 pontos percentuais — tendem a migrar quase integralmente para Tarcísio. O grupo do centro-direita moderado, estimado entre 10 e 12 pontos, historicamente se inclina mais ao candidato tido como mais conservador ou mais distante do incumbente, distribuindo-se de forma tipicamente desigual: cerca de 70% para Tarcísio e 30% para Lula. Apenas a parcela residual da centro-esquerda — cerca de 4 a 5 pontos — migra com clareza para o atual presidente.

Já os indecisos merecem atenção especial. Em média, as pesquisas de 2º turno registram algo entre 6% e 10% de eleitores sem escolha definida. Comportamento histórico (2006, 2010, 2014, 2018, 2022) revela que indecisos, na reta final, não se distribuem de forma simétrica: eles tendem a pender majoritariamente para o candidato de centro-direita, especialmente quando o outro candidato apresenta rejeição elevada. Assim, aplicando um coeficiente conservador — 70% dos indecisos para Tarcísio e 30% para Lula — obtém-se uma migração final que reforça a tendência de que o voto anti-incumbente se concentre no desafiador.

Quando esses três componentes são incorporados ao modelo — rejeição de 44% a Lula, redistribuição realista dos votos dos demais candidatos e migração assimétrica dos indecisos — o cenário do segundo turno deixa de replicar o pequeno favoritismo numérico medido nas pesquisas e passa a refletir a estrutura mais profunda do eleitorado. Ao reconstruirmos o segundo turno passo a passo, partimos do agregado estatístico puro, no qual Lula aparece com 45,6% e Tarcísio com 44,6%. Após redistribuir os votos dos candidatos eliminados, Lula chega a aproximadamente 50,7%, enquanto Tarcísio sobe a 49,4%. Nesse ponto, o cenário já se encontra praticamente empatado. No entanto, ao adicionar a migração final dos indecisos — 70% para o governador e 30% para o presidente — a curva se inverte, e o equilíbrio recai levemente para Tarcísio. Normalizando os valores finais, alcançamos um resultado estimado de 50,5% para Tarcísio e 49,5% para Lula. Em outras palavras, o modelo comportamental-eleitoral sugere que uma eleição que hoje, nas pesquisas, aparece com Lula marginalmente à frente pode, no cenário real do segundo turno, se transformar em uma disputa completamente aberta, na qual Tarcísio possui uma vantagem estrutural modesta, mas significativa.

Essa constatação tem implicações importantes. Primeiro, ela desmonta a percepção de que Lula entraria no segundo turno como favorito confortável; na prática, sua vantagem nas pesquisas diretas é insuficiente para neutralizar o efeito combinado da rejeição elevada e da concentração do voto anti-Lula. Segundo, evidencia que Tarcísio reúne um conjunto de características que o transformam no adversário mais competitivo contra o presidente: atrai de forma natural o bolsonarismo, exercita apelo substantivo no centro-direita e se beneficia do fluxo final dos indecisos. Terceiro, revela que as pesquisas de primeiro turno — e mesmo as de segundo turno — captam apenas parcialmente o comportamento que realmente define a disputa final.

Ao final, o que se observa não é a fotografia estática das intenções de voto, mas o movimento subjacente que tende a prevalecer na reta final de campanhas majoritárias: a consolidação de blocos eleitorais, a rejeição como força motriz e a migração estratégica de eleitores sem definição clara. Sob esse prisma, o confronto Lula x Tarcísio deixa de ser o embate aparentemente confortável indicado pelos números brutos e passa a constituir uma disputa essencialmente equilibrada, definida por margens estreitas, e cuja direção depende mais dos fluxos estruturais do eleitorado do que das intenções declaradas em qualquer pesquisa isolada.


Agregador Bayesiano