quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Bolsonaro nas pesquisas: quem tende a superestimar, quem subestima — e por que o padrão se repete desde 2018


Desde sua ascensão ao centro da política nacional, Jair Bolsonaro tem sido talvez o candidato que mais tensionou o sistema de pesquisas eleitorais no Brasil. Em 2018, sua trajetória foi tratada como um “ponto fora da curva”. Em 2022, sua competitividade até o segundo turno reacendeu acusações de erro sistemático por parte dos institutos. Já no atual ciclo pré-eleitoral de 2026 — mesmo sem Bolsonaro como candidato formal —, o debate ressurge de forma indireta, agora em torno de seus herdeiros políticos. O fio condutor desses três momentos é o mesmo: a percepção de que alguns institutos “subestimam” Bolsonaro, enquanto outros parecem “superestimá-lo”.

Mas o que os dados realmente mostram quando analisados de forma estruturada, histórica e comparável? A resposta, assim como no caso de Lula, é menos intuitiva — e mais interessante — do que o debate público costuma sugerir.

O conceito correto: superestimação e subestimação relativas

Assim como no caso de Lula, falar em superestimação ou subestimação de Bolsonaro não significa falar em erro absoluto frente ao resultado final da eleição. O conceito é relativo ao sistema de pesquisas de cada momento.

Um instituto superestima Bolsonaro quando, de forma persistente, mede sua intenção de voto acima do consenso agregado das pesquisas disponíveis. Subestima quando aparece sistematicamente abaixo desse consenso. O ponto-chave não é um levantamento isolado, mas o padrão recorrente ao longo do tempo.

Esse enquadramento é fundamental para evitar confusões. Um instituto pode subestimar Bolsonaro em relação ao consenso e ainda assim acertar muito bem o resultado final — algo que ocorreu com frequência. O inverso também é verdadeiro.

Por que Bolsonaro tensiona mais as pesquisas?

Bolsonaro expõe limites e escolhas metodológicas porque mobiliza segmentos do eleitorado difíceis de capturar por métodos tradicionais:

  • eleitores com baixa confiança institucional;

  • maior propensão a não responder pesquisas;

  • voto menos declarado em certos contextos sociais;

  • forte clivagem regional e educacional.

Essas características tornam Bolsonaro especialmente sensível a diferenças de método, como modo de coleta, correções de não resposta e ponderações demográficas. Por isso, os desvios relativos entre institutos tendem a ser mais visíveis do que em candidaturas mais “centrais”.

2018: o primeiro grande choque metodológico

A eleição de 2018 foi o marco inaugural desse debate. Bolsonaro começou a campanha como outsider, cresceu rapidamente e venceu a eleição, deixando parte do debate público convencido de que as pesquisas haviam falhado. Uma análise retrospectiva mais cuidadosa, no entanto, mostra algo diferente.

Institutos que tenderam a subestimar Bolsonaro em 2018

  • Datafolha

  • Ibope (hoje Ipec)

  • Vox Populi

Esses institutos, em média, colocavam Bolsonaro abaixo do consenso final, especialmente no primeiro turno. A explicação mais aceita envolve dificuldade de captar o voto conservador menos escolarizado e mais desconfiado de entrevistas presenciais ou telefônicas.

Institutos que tenderam a superestimar Bolsonaro em 2018

  • Paraná Pesquisas

  • Institutos regionais de perfil semelhante

  • Pesquisas com coleta online embrionária

Esses levantamentos frequentemente posicionavam Bolsonaro acima da média do sistema, captando melhor o eleitorado ideológico e mais mobilizado digitalmente.

📌 Importante: mesmo os institutos que “subestimaram” Bolsonaro ficaram, em sua maioria, dentro da margem de erro no resultado final. O choque foi mais narrativo do que estatístico.

2022: a consolidação dos blocos metodológicos

Se 2018 foi o choque, 2022 foi a confirmação de que não se tratava de acaso. Com Bolsonaro candidato à reeleição e enorme volume de pesquisas, os padrões ficaram ainda mais claros.

Institutos que tenderam a medir Bolsonaro abaixo do consenso em 2022

  • Datafolha

  • Ipec

  • Quaest

Esses institutos, que tendiam a medir Lula acima do consenso, apareciam simetricamente com Bolsonaro abaixo. Em vários momentos da campanha, mostraram uma vantagem maior de Lula do que a média do sistema.

Institutos que tenderam a medir Bolsonaro acima do consenso

  • Paraná Pesquisas

  • AtlasIntel

  • Real Time Big Data

Aqui ocorre um ponto crucial: o AtlasIntel, apesar de frequentemente aparecer acima do consenso pró-Bolsonaro, foi um dos institutos que melhor acertaram a diferença final no segundo turno. Isso demonstra, de forma inequívoca, que subestimar ou superestimar em relação ao consenso não implica pior desempenho.

Institutos mais neutros

  • Ipespe

  • Futura

Esses oscilaram em torno do centro do sistema, reagindo mais rapidamente a movimentos conjunturais.

2026: Bolsonaro fora da urna, mas não do sistema

No ciclo atual, Bolsonaro não aparece como candidato, mas seu campo político está longe de desaparecer. Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro e outros nomes funcionam como proxies do eleitorado bolsonarista. O padrão observado nas pesquisas que medem esses candidatos reproduz, de forma impressionante, o mesmo desenho visto em 2018 e 2022.

Institutos que historicamente captaram melhor o voto bolsonarista seguem colocando seus herdeiros políticos em patamares relativamente mais altos. Outros continuam mais cautelosos, especialmente quando esses votos se confundem com indecisos ou rejeição difusa.

Ou seja: o padrão sobrevive ao próprio Bolsonaro.

Qualidade histórica: há diferença entre os grupos?

Assim como no caso de Lula, a resposta é clara: não há evidência estatística de diferença significativa de qualidade entre os grupos.

Avaliações históricas de desempenho, como as consolidadas no Pindograma (2012–2022), mostram que:

  • Institutos nota A aparecem tanto entre os que superestimam quanto entre os que subestimam Bolsonaro.

  • As médias de erro histórico são semelhantes.

  • As diferenças observadas são dominadas por variância interna e tamanho amostral limitado.

Isso reforça uma conclusão incômoda para narrativas simplistas: não existe um “lado certo” metodologicamente.


O que tudo isso nos ensina?

A análise longitudinal de Bolsonaro nas pesquisas permite extrair algumas lições robustas:

  1. Bolsonaro é um teste de estresse para métodos de pesquisa, não uma anomalia estatística.

  2. Os mesmos institutos mantêm posições relativas estáveis ao longo do tempo.

  3. Superestimação e subestimação são características estruturais, não falhas morais ou técnicas.

  4. Agregação é indispensável para neutralizar vieses direcionais.

  5. O erro percebido pelo público é muitas vezes narrativo, não estatístico.

Conclusão: o valor da pluralidade metodológica

Ao observar Bolsonaro em 2018, 2022 e 2026, a evidência aponta para uma conclusão inequívoca: o sistema de pesquisas brasileiro funciona melhor quando analisado como um ecossistema, não como uma competição entre institutos isolados.

Institutos diferentes enxergam partes diferentes do eleitorado. Bolsonaro — mais do que qualquer outro candidato recente — expôs essa verdade de forma crua. Em vez de desacreditar pesquisas, essa constatação deveria levar ao oposto: mais sofisticação na leitura, menos caça às bruxas.

No fim das contas, o erro mais comum não está nos números. Está na interpretação.

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