quarta-feira, 12 de novembro de 2025

O que dizem os fundamentos: como a aprovação e a economia moldam a eleição presidencial de 2026


1. O método por trás da política

Entre os meses de outubro e novembro de 2025, o debate eleitoral brasileiro começou a ganhar contornos mais definidos. Ainda distante do calendário oficial, o mercado, a imprensa e o meio político voltaram a observar um indicador que, nas democracias presidenciais, costuma ter poder preditivo notável: a aprovação líquida do presidente em exercício.

A partir desse indicador, somado a variáveis econômicas e institucionais, é possível construir o que cientistas políticos chamam de modelo fundamental — uma ferramenta estatística usada para estimar o desempenho eleitoral de um incumbente (ou do partido no poder) a partir de fatores estruturais, antes que a campanha se inicie de fato.

Esses modelos, difundidos inicialmente nos Estados Unidos nas décadas de 1980 e 1990 (Lewis-Beck & Rice, 1992; Fair, 1996), partem de um pressuposto simples e empiricamente robusto: eleições são, em larga medida, referendos sobre o desempenho do governo. Em outras palavras, a economia e a popularidade presidencial explicam boa parte da variação nos resultados eleitorais.

O chamado Modelo Fundamental Brasileiro, aplicado aqui, segue essa tradição e foi adaptado à realidade política do país, combinando três variáveis principais:

  1. Aprovação líquida do presidente (aprovação menos reprovação), medida em pontos percentuais;

  2. Crescimento real do PIB no ano eleitoral;

  3. Fadiga de poder, representando o número de mandatos consecutivos do partido no governo.

A equação-base é linear e assume a seguinte forma:

[
\text{Voto do incumbente (1º turno)} = 46 + 0,72 \cdot (\text{Aprovação líquida}) + 1,36 \cdot (\text{PIB}) - 2,07 \cdot (\text{Fadiga})
]

O intercepto (46%) reflete a média histórica do desempenho de presidentes ou partidos incumbentes nas eleições brasileiras desde 1994. Cada coeficiente expressa o impacto marginal estimado de uma unidade da variável no voto do governo.

Esses parâmetros foram calibrados com base em estudos comparativos internacionais e evidências empíricas nacionais. Pesquisas de economic voting (Healy & Malhotra, 2013; Singer, 2020) mostram que, em democracias de renda média, 1 ponto percentual de aumento no PIB tende a elevar em 1 a 1,5 ponto a votação do incumbente. Já 1 ponto de ganho na aprovação líquida gera, em média, um acréscimo de 0,7 ponto na intenção de voto. O efeito da fadiga, por sua vez, é negativo: cada mandato consecutivo reduz o desempenho esperado em cerca de 2 pontos percentuais.


2. A radiografia da aprovação presidencial

O primeiro insumo do modelo, a aprovação líquida, tem sido o foco de atenção desde o início do segundo semestre de 2025. O levantamento médio das principais pesquisas (PoderData, Quaest, AtlasIntel e Paraná Pesquisas) indicava, em outubro, uma aprovação de 47,8% e reprovação de 49,3%, resultando em −1,4 ponto percentual de aprovação líquida.

Em novembro, segundo o levantamento mais recente da Quaest, essa diferença aumentou ligeiramente para −3 pontos percentuais — ou seja, há três pontos a mais de eleitores que desaprovam o governo do que os que o aprovam.

Em perspectiva histórica, trata-se de um patamar neutro a levemente negativo, semelhante ao registrado por Jair Bolsonaro no final de 2021 (−4 pp) e melhor que o observado por Dilma Rousseff no início de 2015 (−30 pp), mas inferior ao de Lula em 2006, que mantinha uma aprovação líquida positiva de +15 pp às vésperas de sua reeleição.

Em resumo, o presidente Lula chega ao último trimestre de 2025 com um saldo de popularidade estagnado, insuficiente para garantir maioria no primeiro turno, mas ainda dentro da faixa de competitividade estrutural.


3. O cenário econômico e o efeito do crescimento

O segundo pilar do modelo é o desempenho da economia, medido aqui pelo crescimento real do PIB. Para 2025, as projeções do Boletim Focus (Banco Central, outubro/novembro) situam o crescimento entre 1,8% e 2,2%, após um 2024 de modesta expansão de 1,5%.

Em termos comparativos, esse ritmo é moderado, mas positivo. O Brasil se mantém acima da média de crescimento da América Latina (1,6%) e em linha com o desempenho de outros emergentes não asiáticos.

No modelo, cada 1 ponto adicional no PIB acrescenta 1,36 ponto percentual ao voto do incumbente. Assim, um crescimento de 2% adiciona +2,7 pontos percentuais à previsão de Lula — um efeito considerável, capaz de compensar parte do impacto negativo de uma aprovação líquida levemente desfavorável.

A mensagem estrutural é clara: mesmo um crescimento modesto, mas sustentado, tende a proteger o governo nas urnas. Em países de renda média, a memória econômica do eleitor é curta — o desempenho dos últimos 12 a 18 meses pesa muito mais do que o histórico de todo o mandato.


4. O fator tempo: a fadiga do poder

O terceiro elemento é a fadiga de poder (time in office effect). Esse fenômeno expressa a tendência dos eleitores de punirem partidos que permanecem por longos períodos no governo, independentemente do desempenho recente.

Na modelagem, a fadiga entra como uma variável discreta (1 para o primeiro mandato consecutivo, 2 para o segundo, e assim por diante). Cada unidade adicional reduz, em média, 2 pontos percentuais da votação prevista.

No caso de Lula em 2026, a fadiga é 1, já que o Partido dos Trabalhadores retornou ao poder em 2023 após um intervalo de seis anos fora do governo federal. Isso significa que a penalidade ainda é moderada. Contudo, se o PT viesse a disputar um terceiro mandato consecutivo em 2030, a perda estrutural se ampliaria.

Esse efeito foi observado empiricamente em diversas democracias: o Partido Justicialista na Argentina (2007–2015), o PSDB no Brasil (1995–2002), e o PRI no México (1988–2000). A repetição do grupo no poder tende a gerar desgaste simbólico, mesmo diante de uma economia estável.


5. O resultado: o que o modelo prevê hoje

Aplicando as variáveis observadas até novembro de 2025 — aprovação líquida de −3, PIB de +2% e fadiga de 1 —, o modelo fundamental estima que o presidente Lula teria cerca de 44,5% dos votos válidos no primeiro turno de 2026.

O intervalo de confiança de 95%, que incorpora a incerteza estatística e o erro estrutural do modelo (±4 p.p.), vai de 36,6% a 52,4%.

Isso significa que, estatisticamente, o governo se encontra no limiar inferior de competitividade: ainda capaz de liderar a disputa, mas sem perspectiva clara de vitória em primeiro turno. O resultado se alinha ao padrão histórico brasileiro: desde 1994, nenhum presidente com aprovação líquida negativa venceu no primeiro turno, embora reeleições sejam comuns quando a economia cresce acima de 2%.


6. O que explica a estabilidade do governo

O desempenho estimado revela uma peculiaridade do cenário de 2025: a economia ajuda, mas a política trava. Apesar de um ambiente macroeconômico relativamente estável — inflação controlada, câmbio previsível e desemprego em queda gradual —, a percepção pública do governo parece mais influenciada por temas de governabilidade, conflito político e sensação de estagnação.

Pesquisas qualitativas mostram que, para boa parte do eleitorado, o “alívio” econômico ainda não se traduziu em melhora perceptível da renda ou do custo de vida. O lag entre recuperação macro e percepção individual de bem-estar — já bem documentado na literatura de retrospective voting — ajuda a entender por que a aprovação líquida segue próxima de zero mesmo com crescimento positivo.

Outro fator é o aumento da polarização estrutural. Desde 2018, o eleitorado brasileiro mostra menor propensão a “recompensar” ou “punir” o incumbente conforme o desempenho econômico, e maior tendência a decidir com base em identidade partidária e valores políticos. Em termos estatísticos, o coeficiente de elasticidade econômica do voto caiu, mas ainda é relevante.


7. O que o modelo acerta — e o que ele não captura

Os modelos fundamentais têm duas virtudes principais: simplicidade e transparência. Eles fornecem uma estimativa objetiva e verificável de como variáveis estruturais influenciam o voto, antes da entrada dos fatores de campanha (debates, propaganda, crises).

No entanto, há limitações importantes. O modelo não capta:

  • Choques políticos ou escândalos de grande magnitude;

  • Alterações no ambiente institucional (mudanças no sistema partidário, novas coligações, entrada de outsiders);

  • Variações regionais na economia ou na aprovação presidencial.

Além disso, o erro histórico médio desses modelos — em torno de ±4 pontos percentuais — pode ser decisivo em eleições fragmentadas. Um erro de 3 ou 4 pontos pode significar a diferença entre liderar o primeiro turno e enfrentar uma disputa acirrada em segundo.


8. Cenários alternativos: o que pode mudar até 2026

Para explorar a sensibilidade do modelo, simulam-se três cenários possíveis:

Cenário Aprovação líquida PIB 2025 (%) Voto previsto (1º turno)
Otimista +5 3,0 52,6%
Base −3 2,0 44,5%
Adverso −8 1,0 38,1%

Os resultados indicam que pequenas variações na economia e na popularidade presidencial podem deslocar o voto previsto em até 14 pontos percentuais.

Assim, se o governo conseguir transformar crescimento moderado em percepção de melhora e elevar sua aprovação líquida em cinco pontos até o meio de 2026, a probabilidade de vitória no primeiro turno aumenta sensivelmente.


9. Conclusão: entre fundamentos e incerteza

Os números mostram que a corrida presidencial de 2026 ainda está aberta. Estruturalmente, o presidente Lula entra no ano eleitoral em posição de vantagem competitiva, mas não de conforto. O cenário é semelhante ao de 2018 para o PSDB ou 2014 para Dilma Rousseff: uma base de 40–45% que garante presença no segundo turno, mas não assegura vitória.

O modelo fundamental não prevê o comportamento humano, mas ajuda a colocar a disputa em perspectiva: a política eleitoral continua sendo, antes de tudo, uma avaliação de desempenho.

Enquanto a economia seguir crescendo, a taxa de desemprego cair e a inflação permanecer sob controle, o governo preservará seu núcleo de apoio. Mas, se a percepção de estagnação persistir — e a aprovação líquida continuar negativa —, a disputa de 2026 poderá repetir o padrão de 2014 e 2022: uma eleição decidida por poucos pontos percentuais, com o país novamente dividido ao meio.


Referências bibliográficas essenciais

  • Healy, A. & Malhotra, N. (2013). Retrospective Voting Reconsidered. Annual Review of Political Science, 16, 285–306.

  • Lewis-Beck, M. & Stegmaier, M. (2013). Economic Voting. Oxford Bibliographies.

  • Singer, M. (2020). Electoral Accountability in Latin America. Oxford University Press.

  • Stiers, D. (2021). Performance Voting and Retrospective Evaluation. Comparative Political Studies.

  • Fair, R. (1996). The Effect of Economic Variables on Presidential Elections. American Economic Review.


Nenhum comentário:

Postar um comentário